Vacinas e Eventos Cardiovasculares: O Que os Estudos Realmente Mostram

Com a ampla cobertura vacinal contra a COVID-19, surgiram preocupações sobre possíveis efeitos adversos cardiovasculares associados as vacinas de mRNA. Entre eles, destaca-se a miocardite, que se tornou foco de inúmeros estudos. Mas qual é a real magnitude desses riscos? E como eles se comparam aos riscos associados à infecção pelo SARS-CoV-2?
 
Neste artigo, vamos destrinchar as evidências mais relevantes e responder, com base em dados robustos, se as vacinas de fato representam uma ameaça ao coração — ou se são aliadas na sua proteção.
 

Miocardite associada às vacinas de mRNA: o que sabemos até agora

O evento cardiovascular mais frequentemente associado à vacinação é a miocardite, principalmente após vacinas de mRNA (Pfizer-BioNTech/BNT162b2 e Moderna/mRNA-1273). Segundo o estudo de Oster et al. (JAMA, 2022), baseado em dados do Vaccine Adverse Event Reporting System (VAERS) entre dezembro de 2020 e agosto de 2021, foram documentados 1.626 casos de miocardite nos Estados Unidos. A maior incidência ocorreu em:
Homens entre 12 e 24 anos
Após a segunda dose da vacina
• Com uma taxa que variou entre 40 a 106 casos por milhão de doses aplicadas nesse grupo.
 
Apesar da associação, a maioria dos casos teve:
Início rápido dos sintomas (em até 3 dias)
Quadro clínico leve
Resolução espontânea ou com tratamento anti-inflamatório
Baixa mortalidade
 
O artigo de Gluckman et al. (JACC, 2022) reforça esses achados e propõe um algoritmo clínico para o manejo da miocardite pós-vacinal, com foco no retorno seguro às atividades físicas e no acompanhamento cardiológico adequado.
 

E as arritmias, pericardite e AVC? O que os dados mostram?

Estudos populacionais amplos, como o de Xu et al. (European Heart Journal, 2025), com dados de todo o sistema de saúde sueco, investigaram possíveis eventos adversos cardiovasculares graves após vacinação. A coorte incluiu mais de 7 milhões de adultos, e os achados foram:
Nenhum aumento significativo no risco de arritmias graves (como fibrilação atrial, taquicardia ventricular ou parada cardíaca)
Pequeno aumento transitório no risco de AIT e arritmias benignas (como extrasístoles) em idosos
Sem aumento do risco de AVC isquêmico ou hemorrágico relevante após vacinação.
 
Outros estudos reforçaram essa segurança cardiovascular:
Patone et al. (Nature Medicine, 2022): estudaram mais de 38 milhões de pessoas no Reino Unido. Concluíram que:
O risco de miocardite era discretamente aumentado após a 2ª dose das vacinas de mRNA, mas ainda muito menor do que após infecção por COVID-19.
Nenhum aumento de risco relevante de arritmias graves, morte súbita ou AVC após vacinação.
Pimentel et al. (Nature Communications, 2024): estudo retrospectivo em Abu Dhabi com mais de 1 milhão de vacinados. Encontraram eventos cardiovasculares raros, mas sem relação causal comprovada com a vacinação. O risco de eventos hematológicos também foi baixo.
 

E quanto à morte súbita em jovens?

O estudo de Sun et al. (Scientific Reports, 2022) avaliou dados de emergências em Israel durante o período de vacinação e observou aumento no número de chamadas por parada cardíaca em adultos jovens (<40 anos).
 
Contudo:
• O estudo não estabeleceu uma relação causal com a vacinação.
• Os autores ressaltaram que o aumento coincidiu com picos da pandemia e alta circulação viral, o que também pode explicar os achados.
 
Portanto, não há evidência robusta de que a vacinação aumente o risco de morte súbita. A principal associação ainda é com miocardite leve, que raramente evolui para casos graves ou fatais.
 

Infecção por COVID-19: o verdadeiro vilão para o coração

A comparação com a infecção por SARS-CoV-2 é essencial. Diversos estudos, incluindo os de Altman et al. (Circulation Research, 2023) e Barouch (NEJM, 2022), demonstram que a COVID-19 está associada a riscos cardiovasculares substancialmente maiores do que a vacinação, incluindo:
Miocardite
Pericardite
Fibrilação atrial e outras arritmias
AVC isquêmico
Tromboembolismo venoso
Morte súbita
 
Estima-se que a infecção aumente o risco de miocardite em até 16 vezes, especialmente nas primeiras semanas após o diagnóstico.
 
Além disso, estudos como o de Patone mostram que o risco cardiovascular permanece elevado por semanas a meses após a infecção, mesmo em casos leves de COVID-19.

Resumo comparativo: os dados são claros

Conclusão: o benefício supera o risco

É fato que vacinas podem, em raríssimos casos, causar miocardite, geralmente de forma leve e autolimitada. Eventos como pericardite, AIT e arritmias são menos frequentes ainda e, na maioria das vezes, sem impacto clínico significativo.

 

Por outro lado, a infecção por COVID-19 representa um risco cardiovascular real e muito mais perigoso.

 

A vacinação protege não só contra a infecção, mas também contra desfechos cardíacos graves.
A ciência é clara: os benefícios da vacinação superam amplamente os riscos.

Fontes

1. GLUCKMAN, T. J. et al. 2022 ACC Expert Consensus Decision Pathway on Cardiovascular Sequelae of COVID-19 in Adults: Myocarditis and Other Myocardial Involvement, Post-Acute Sequelae of SARS-CoV-2 Infection, and Return to Play: A Report of the American College of Cardiology Solution Set Oversight Committee. Journal of the American College of Cardiology, v. 79, n. 17, p. 1717–1756, 2022. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jacc.2022.02.003.
2. OSTER, M. E. et al. Myocarditis Cases Reported After mRNA-Based COVID-19 Vaccination in the US From December 2020 to August 2021. JAMA, v. 327, n. 4, p. 331–340, 2022. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2021.24110.
3. ALTMAN, N. L. et al. Vaccination-Associated Myocarditis and Myocardial Injury. Circulation Research, v. 132, n. 10, p. 1338–1357, 2023. DOI: https://doi.org/10.1161/CIRCRESAHA.122.321881.
4. XU, Y. et al. Cardiovascular Events Following Coronavirus Disease 2019 Vaccination in Adults: A Nationwide Swedish Study. European Heart Journal, v. 46, n. 2, p. 147–157, 2025. DOI: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehae639.
5. PIMENTEL, M. A. F. et al. COVID-19 Vaccination and Major Cardiovascular and Haematological Adverse Events in Abu Dhabi: Retrospective Cohort Study. Nature Communications, v. 15, n. 1, art. 5490, 2024. DOI: https://doi.org/10.1038/s41467-024-49744-6.
6. PATONE, M. et al. Risks of Myocarditis, Pericarditis, and Cardiac Arrhythmias Associated With COVID-19 Vaccination or SARS-CoV-2 Infection. Nature Medicine, v. 28, n. 2, p. 410–422, 2022. DOI: https://doi.org/10.1038/s41591-021-01630-0.
7. BAROUCH, D. H. Covid-19 Vaccines — Immunity, Variants, Boosters. The New England Journal of Medicine, v. 387, n. 11, p. 1011–1020, 2022. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMra2206573.
8. SUN, C. L. F.; JAFFE, E.; LEVI, R. Increased Emergency Cardiovascular Events Among Under-40 Population in Israel During Vaccine Rollout and Third COVID-19 Wave. Scientific Reports, v. 12, art. 6978, 2022. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-022-10928-z.

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