A sepse é uma das principais causas de mortalidade em todo o mundo, resultando de uma resposta desregulada do organismo a uma infecção. Reconhecer os sinais precocemente e iniciar o tratamento adequado pode salvar vidas. Você sabe quais são os primeiros passos no manejo da sepse? Como escolher o antibiótico correto para cada tipo de infecção?
Neste artigo, vamos abordar tudo o que você precisa saber sobre o diagnóstico, tratamento e principais recomendações atualizadas, incluindo as melhores opções terapêuticas para cada foco infeccioso. Não perca essa leitura essencial!
O Que é Sepse?
De acordo com a definição do Sepsis-3, a sepse é uma disfunção orgânica causada por uma resposta do hospedeiro desregulada à infecção, sendo caracterizada por SOFA ≥ 2 pontos, com mortalidade inicial estimada em 10%.
📌 Choque séptico é um choque distributivo e é a forma mais grave da sepse e ocorre quando há:
✔ Hipotensão persistente que requer vasopressores para manter a PAM ≥ 65 mmHg;
✔ Lactato sérico > 2 mmol/L mesmo após reposição volêmica adequada.
Como Diagnosticar Sepse?
A triagem rápida é fundamental para iniciar o tratamento precocemente. As principais ferramentas utilizadas incluem (somadas):
📌 qSOFA (Quick SOFA Score) → Critérios (≥ 2 pontos indicam alto risco de mortalidade e sugerem sepse):
✔ PA sistólica ≤ 100 mmHg;
✔ FR ≥ 22 ipm;
✔ Alteração do nível de consciência (Glasgow < 15).
📌 SIRS (Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica) → Critérios (≥ 2 pontos sugerem sepse):
✔ Temperatura > 38,3ºC ou < 36ºC;
✔ FC > 90 bpm;
✔ FR > 20 ipm ou PaCO₂ < 32 mmHg;
✔ Leucócitos > 12.000/mm³ ou < 4.000/mm³.
📌 Para confirmar o diagnóstico de Sepse, é necessário utilizar o score SOFA (Sequential Organ Failure Assessment), que serve para identificar e mensurar as disfunções orgânicas presentes na sepse. 2 ou mais pontos no SOFA já confirma o diagnóstico! Você pode conferir o score completo na imagem abaixo a esse tópico, mas não há necessidade de decorar.
📌 Laboratório e Exames Complementares:
✔ Gasometria Arterial → relação PaO2/FiO2 e Lactato Arterial;
✔ Hemograma, bilirrubina total e em frações e Creatinina Sérica → são marcadores de disfunção medular (plaquetopenia), disfunção hepática e disfunção renal, respectivamente;
✔ 2 pares de Hemoculturas (aeróbio e anaeróbio) e culturas de sítios suspeitos → Para direcionar a antibioticoterapia.
Manejo da Sepse: O que Fazer na Primeira Hora?
A campanha Surviving Sepsis 2021 recomenda o “Bundle de 1 hora”, que consiste em:
✔ 1. Coletar lactato sérico e repetir em 2 a 4 horas se > 2 mmol/L;
✔ 2. Coletar culturas antes de iniciar antibiótico (hemoculturas + culturas específicas);
✔ 3. Iniciar antibioticoterapia empírica o mais rápido possível;
✔ 4. Administrar reposição volêmica inicial (30 mL/kg de cristaloides balanceados em 3 horas);
✔ 5. Iniciar vasopressores se PA não responder à fluidoterapia (preferir noradrenalina). Noradrenalina pode ser feita em acesso venoso periférico por até 6 horas!! Inicie com 5 ml, reavalie a Pressão Arterial Média a cada 5 minutos e, caso não haja resposta, aumente mais 5 ml.
✔ 6. Sempre garantir o MOVE-HGT: Monitorização em sala vermelha ou UTI, Oxigenação, Acesso Venoso, Exame Clínico completo e Glicemia capilar.
⏳ O tempo é fundamental! O uso precoce de antibióticos reduz a mortalidade em até 33%.
Antibioticoterapia Empírica na Sepse
O tratamento antimicrobiano deve ser direcionado conforme o provável foco da infecção e o local onde foi adquirida (comunidade ou hospital).
Vale salientar a importância do controle do foco infeccioso: abscessos devem ser drenados, cavidades desobstruídas e dispositivos invasivos que podem ser a causa da infecção (ex.: CVC e CVD) precisam ser removidos.
📌 1️⃣ Sepse de Foco Urinário
✔ Adquirida na comunidade: Ceftriaxona 2g IV 1x/dia;
✔ Adquirida no hospital: Piperacilina-Tazobactam 4,5g IV 6/6h OU Cefepima 2g IV 8/8h.
📌 2️⃣ Sepse de Foco Abdominal
✔ Adquirida na comunidade: Ceftriaxona 2g IV 1x/dia + Metronidazol 500 mg IV 8/8h;
✔ Adquirida no hospital: Piperacilina-Tazobactam 4,5g IV 6/6h OU Cefepima 2g IV 8/8h + Metronidazol 500 mg IV 8/8h. Adição de Vancomicina ou Teicoplanina se: infecção de sítio cirúrgico ou risco de Enterococcus spp.
📌 3️⃣ Sepse de Foco Pulmonar
✔ Adquirida na comunidade: Ceftriaxona 2g IV 1x/dia + Azitromicina 500 mg IV 1x/dia OU Levofloxacino 750 mg IV 1x/dia;
✔ Adquirida no hospital: Piperacilina-Tazobactam 4,5g IV 6/6h OU Cefepima 2g IV 8/8h + Vancomicina 15 mg/kg IV 12/12h (apenas se alta suspeita de MRSA).
📌 4️⃣ Sepse por Infecção de Pele e Partes Moles
✔ Adquirida na comunidade (não-diabéticos): Cefazolina 2g IV 8/8h OU Oxacilina 2g IV 4/4h;
✔ Adquirida no hospital (não-diabéticos): Vancomicina 15 mg/kg IV 12/12h.
✔ Adquirida na comunidade (diabéticos): Ciprofloxacino 400 mg IV 12/12h + Ceftriaxona 2g IV 1x/dia OU Clindamicina 600 mg IV 8/8h;
✔ Adquirida no hospital (diabéticos): Piperacilina-tazobactam 4,5g IV 6/6h + Vancomicina 15 mg/kg IV 12/12h.
⚠ Pacientes imunossuprimidos: Avaliar necessidade de cobertura para fungos e vírus conforme contexto clínico.
⚠ Ajuste o esquema terapêutico após o resultado das culturas. Para o Foco Abdominal, mesmo que não cresçam anaeróbios nas culturas, mantenha a cobertura empírica!
Quando Considerar Terapias Adicionais?
✔ Corticoterapia (Hidrocortisona 50 mg IV 6/6h OU 200 mg/dia em infusão contínua): Em pacientes com choque séptico refratário ao uso de vasopressores em detrimento de insuficiência adrenal relativa;
✔ Dobutamina: Se houver disfunção miocárdica associada;
✔ No Choque Séptico Refratário ao uso de Noradrenalina (pelo menos 30 ml) pode ser necessária a adição de Vasopressina ao esquema;
✔ Para evitar síndrome vasoplégica em pacientes em Choque Séptico com hipocalcemia, recomenda-se a administração de Gluconato de Cálcio;
✔ Profilaxia de TVP e úlcera de estresse em pacientes críticos;
✔ Bicarbonato de Sódio é indicado apenas se Choque Séptico + Acidose Metabólica (pH ≤ 7,2) e Injúria Renal Aguda (IRA);
✔ Insulina deve ser utilizada apenas em pacientes com glicemia capilar ≥ 180 mg/dL.
Conclusão
A sepse é uma emergência médica e deve ser tratada de forma imediata. O diagnóstico precoce e a administração rápida de antibióticos e suporte hemodinâmico são essenciais para reduzir a mortalidade.
📌 Resumo dos principais pontos:
✔ Sepse é uma disfunção orgânica grave causada por infecção;
✔ Diagnóstico inclui qSOFA ≥ 2 pontos, SIRS e exames laboratoriais;
✔ O tratamento deve seguir o Bundle de 1 hora com antibióticos empíricos adequados;
✔ Foco da infecção deve ser identificado para otimizar a terapia antimicrobiana;
✔ Choque séptico exige suporte hemodinâmico e, em alguns casos, terapias adicionais.
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Fontes
1. SURVIVING SEPSIS CAMPAIGN. International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Critical Care Medicine, v. 49, n. 11, p. e1063-e1143, 2021.
2. SINGER, M. et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, v. 315, n. 8, p. 801-810, 2016.
3. TORRES, A. et al. Severe Community-Acquired Pneumonia: Current Treatment and Future Options. The Lancet Respiratory Medicine, v. 9, n. 10, p. 1072-1086, 2021.
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