O uso de antibióticos é essencial, mas deve ser restrito a casos em que há indicação clínica clara. O uso inadequado contribui para o aumento da resistência bacteriana, um dos maiores desafios de saúde pública. Este artigo detalha os cenários em que antibióticos são realmente necessários, oferecendo uma visão aprofundada e baseada em evidências para médicos e estudantes de medicina.
1. Infecções Bacterianas Confirmadas ou Fortemente Suspeitas
Antibióticos são eficazes contra infecções bacterianas, não virais, e seu uso é indicado quando há confirmação ou suspeita clínica de uma infecção bacteriana.
Exemplos comuns incluem:
- Pneumonia bacteriana: Geralmente causada por Streptococcus pneumoniae ou Haemophilus influenzae.
- Infecções urinárias: Como cistite e pielonefrite, frequentemente causadas por Escherichia coli.
- Meningite bacteriana: Infecção grave frequentemente causada por Neisseria meningitidis ou Streptococcus pneumoniae.
- Faringite estreptocócica: Relacionada ao Streptococcus pyogenes.
- Infecções de pele: Como celulite causada por Staphylococcus aureus ou Streptococcus.
Ferramentas diagnósticas úteis para fazermos essa diferenciação incluem:
- Hemograma completo: Leucocitose com desvio à esquerda (aumento de bastonetes, mielócitos ou metamielócitos, por exemplo) ocorre mais frequentemente em infecções bacterianas.
Proteína-C Reativa (PCR): Aumentada em qualquer processo inflamatório, mas com aumento expressivo mais visto em infecções bacterianas graves. - Culturas microbiológicas: Sempre que possível, devem ser coletadas antes do início do tratamento antibiótico para identificação do microrganismo que está causando o problema.
2. Prevenção de Infecções em Situações Específicas (Profilaxia)
O uso de antibióticos para prevenção é indicado em casos selecionados:
- Profilaxia cirúrgica: Previne infecções pós-operatórias em cirurgias de risco.
- Após mordeduras profundas de animais: Para evitar infecções como pasteurelose.
- Pacientes imunocomprometidos: Profilaxia para Pneumocystis jirovecii e Toxoplasmose em indivíduos com HIV/Aids com CD4 < 200 células/mm³.
3. Infecções Virais, Fúngicas ou Parasitárias: Quando NÃO Usar Antibióticos
Salvo algumas exceções, a maior parte dos antibióticos não é eficaz contra vírus, fungos ou parasitas.
Exemplos de infecções virais:
- Gripe (Influenza), resfriado comum, COVID-19, gastroenterites virais.
Tratamentos alternativos:
- Infecções fúngicas: Tratamento com antifúngicos (ex.: itraconazol para esporotricose).
- Infecções parasitárias: Tratamento com antiparasitários (ex.: artemisinina para malária).
O uso de antibióticos deve ser reservado apenas para infecções bacterianas secundárias associadas, como pneumonia bacteriana pós-viral, complicação que pode ocorrer após uma Influenza grave, por exemplo.
4. Infecções Mistas
Quando infecções virais levam a complicações bacterianas, como uma pneumonia bacteriana após gripe, o uso de antibióticos é indicado, mas apenas após avaliação cuidadosa. É muito raro, por exemplo, um paciente ter COVID-19 e também Pneumonia Bacteriana dentro da nossa era pós-vacinal. Lembre-se: menos é mais, afinal, os antibióticos não são inócuos de toxicidade aos seus pacientes, e podem aumentar ainda mais o fenômeno de resistência bacteriana.
Como Usar Antibióticos de Forma Responsável?
- Nunca utilizar sem prescrição médica.
- Completar o tratamento prescrito: mesmo que você esteja melhor, a interrupção precoce é relacionada à recidiva e falha clínica.
- Acompanhe o paciente: marque um retorno, uma revisão, oriente sobre o engajamento ao término do tratamento e explique o que ele deve fazer caso tenha alguma infecção no futuro. Múltiplas visitas ao departamento de emergência são as maiores causas de seleção de bactérias MDR, visto que o espectro antimicrobiano é sempre “aumentado” quando não há um cuidado horizontal do paciente.
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Referências e Evidências Científicas
- World Health Organization (WHO). (2019). Antimicrobial Resistance: Global Report on Surveillance. Disponível em: WHO.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). (2020). Antibiotic Use. Disponível em: CDC.
- Chauhan, A. (2018). Rational use of antibiotics. Indian Journal of Pharmacology, 50(4), 157-164.
- Friedman, C. R., & Lipsitch, M. (2003). Antimicrobial use and resistance in developing countries. The Lancet Infectious Diseases, 3(9), 499-505.
