Você já parou para pensar que, ao tratar uma infecção grave, a maneira como administramos o antibiótico pode ser tão importante quanto o antibiótico escolhido?
É exatamente isso que propõe a estratégia da infusão estendida ou contínua de antibióticos. Uma abordagem baseada em farmacodinâmica, evidência científica robusta e que está cada vez mais presente nos protocolos de tratamento de pacientes críticos.
Neste artigo, vamos explorar:
• O que é a infusão estendida e contínua
• Quais antibióticos podem ser utilizados dessa forma
• As evidências que sustentam essa prática
• Os cuidados práticos e indicações clínicas
O que é infusão estendida ou contínua?
A infusão estendida (IE) consiste em diluir o antibiótico e administrá-lo lentamente, geralmente ao longo de 3 a 4 horas, em cada intervalo posológico.
Já na infusão contínua (IC), a dose diária total é diluída e infundida de forma ininterrupta ao longo de 24 horas utilizando Bombas de Infusão Contínua, geralmente precedida por uma dose de ataque para garantir concentrações terapêuticas imediatas.
Exemplos:
• Piperacilina-tazobactam 4,5 g a cada 6h, infundido em 3 horas
• Cefepima 2 g a cada 8h, infundido em 3 horas
• Ampicilina-sulbactam 27 g/24h (em infusão contínua com dose de ataque)
Por que essa estratégia funciona?
Os antibióticos β-lactâmicos (penicilinas, cefalosporinas, carbapenêmicos) têm um comportamento farmacodinâmico chamado “time-dependent killing”, ou seja, sua eficácia depende do tempo que a concentração livre do fármaco permanece acima da MIC (fT>MIC).
Quando administramos o antibiótico de forma estendida ou contínua:
• Aumentamos o fT>MIC
• Garantimos concentração sustentada do fármaco
• Otimizamos o efeito bactericida
• Reduzimos a probabilidade de falha terapêutica
Essa estratégia é especialmente útil em:
• Pacientes críticos e em choque séptico
• Infecções por patógenos com MICs elevadas ou em sítios de difícil penetração, como o Sistema Nervoso Central
• Situações com aumento da depuração de fármacos, como em pacientes jovens, queimados ou em suporte renal
Quais antibióticos podem ser usados dessa forma?
Segundo as diretrizes da IDSA (2023), Surviving Sepsis Campaign (2021) e diversas meta-análises, os seguintes β-lactâmicos têm respaldo para administração prolongada ou contínua:
• Penicilinas: piperacilina-tazobactam, ampicilina-sulbactam
• Cefalosporinas: cefepima, ceftazidima, cefotaxima (benefício limitado)
• Carbapenêmicos: meropenem, imipenem-cilastatina, doripenem
• Novas combinações: ceftazidima-avibactam (incluindo aztreonam-avibactam), ceftolozane-tazobactam, meropenem-vaborbactam
E a Vancomicina?
A vancomicina não é um β-lactâmico, mas seu uso em infusão contínua é cada vez mais recomendado para otimizar a relação AUC/MIC, principalmente em pacientes críticos com infecções por Staphylococcus aureus.
Diretrizes do AJHP (Rybak et al., 2020) recomendam:
• Dose de ataque: 15–20 mg/kg (idealmente 20 mg/kg)
• Infusão contínua: dose diária baseada na fórmula farmacocinética para atingir AUC de 400–600 mg·h/L, considerando a depuração renal. Recomenda-se uma dose de 30-40 mg/kg
• Requer monitoramento rigoroso por níveis séricos e ajuste diário
Vantagens:
• Alvo AUC/MIC mais confiável
• Redução de nefrotoxicidade comparado ao uso intermitente com meta de pico e vale
Como fazer a Infusão Estendida dos Antibióticos?
Recomendamos dessa forma:
Evidências científicas sobre a infusão estendida de β-lactâmicos
O uso da infusão estendida (3–4h) e da infusão contínua (24h) de β-lactâmicos tem sido amplamente estudado nos últimos anos, especialmente no contexto de sepse, choque séptico, infecções por Gram-negativos multirresistentes e em pacientes críticos com alto clearance renal. Abaixo, estão as principais evidências reunidas:
1. Redução de mortalidade e melhora de desfechos clínicos
Meta-análise de Evans et al. (2021) – Surviving Sepsis Campaign
• Recomenda a infusão estendida ou contínua de β-lactâmicos em pacientes sépticos, especialmente nos primeiros dias de terapia.
• Essa abordagem melhora a probabilidade de atingir o fT>MIC, crucial para a eficácia de tempo-dependentes como piperacilina-tazobactam, meropenem e cefepima.
• É uma das estratégias farmacocinéticas indicadas para pacientes críticos, nos quais o volume de distribuição está aumentado e a depuração renal pode estar acelerada.
2. Otimização do fT>MIC e prevenção de resistência
Goutelle et al. (2023) – Journal of Antimicrobial Chemotherapy
• Simulações de PK/PD mostraram que doses padrão por infusão intermitente frequentemente falham em atingir fT>MIC adequado, principalmente quando o MIC está no limite de sensibilidade.
• A infusão estendida aumenta a probabilidade de atingir >100% do fT>MIC, o que reduz a probabilidade de falha terapêutica e resistência emergente.
3. Uso em Gram-negativos multirresistentes
Gatti & Pea (2021) – Current Opinion in Infectious Diseases
• A infusão contínua foi associada a maior sucesso clínico e microbiológico em infecções por P. aeruginosa, K. pneumoniae e outras enterobactérias resistentes.
• Menor mortalidade foi observada em pacientes críticos quando comparada à infusão intermitente.
4. Reforço das diretrizes internacionais
Hong et al. (2023) – Pharmacotherapy (Recomendações internacionais de consenso)
• Documento copatrocinado por IDSA, ESCMID, BSAC e outros, que recomenda formalmente o uso de infusão prolongada de β-lactâmicos em pacientes com sepse, choque séptico ou infecções graves por patógenos com MIC elevados.
• Destaca-se que a infusão prolongada não aumenta os eventos adversos e está associada a maior eficácia clínica.
5. Aplicação prática e segurança
Venuti et al. (2023) – Drugs (Revisão narrativa)
• Revisão detalhada do uso de antibióticos protegidos por inibidores de β-lactamases (como ceftazidima-avibactam e meropenem-vaborbactam).
• Mostra que essas combinações se beneficiam do uso em infusão prolongada, com ótima estabilidade em solução e benefício clínico comprovado.
• Segurança mantida mesmo em infusões de até 4 horas, com baixo risco de toxicidade.
6. Aplicabilidade em neonatologia e farmacocinética especial
Leegwater et al. (2023) – Clinical Pharmacokinetics
• Estudo realizado em neonatos demonstrou que infusões contínuas de ampicilina-sulbactam e meropenem foram superiores às intermitentes em termos de tempo terapêutico.
• A estratégia também foi associada a menor variabilidade de concentração plasmática e maior previsibilidade de resposta clínica.
7. Risco-benefício em pacientes com depuração elevada
Smekal et al. (2025) – Journal of Antimicrobial Chemotherapy
• Estudo preditivo mostrou que a infusão estendida ou contínua pode evitar subdosagem em pacientes de UTI com clearance elevado, o que não seria alcançado com infusões intermitentes.
• A estratégia foi capaz de minimizar o risco de toxicidade sem comprometer eficácia.
Cuidados práticos e limitações
Nem tudo são flores. Para garantir a eficácia e segurança da estratégia, é necessário considerar:
• Dose de ataque sempre que for usar infusão contínua
• Estabilidade do antibiótico na solução diluída (ex: meropenem pode ter estabilidade limitada em 24h)
• Compatibilidade com outros fármacos intravenosos
• Acesso venoso exclusivo ou com compatibilidade conhecida
• Viabilidade operacional da farmácia hospitalar e equipe de enfermagem
Conclusão
A infusão estendida ou contínua de β-lactâmicos é uma estratégia cientificamente embasada, especialmente relevante em cenários de infecção grave, sepse ou presença de microrganismos multirresistentes.
Mais do que uma modificação posológica, trata-se de uma mudança de paradigma no cuidado com o paciente crítico. Quando o tempo é a chave da eficácia, não basta escolher o antibiótico certo — é preciso administrá-lo da forma certa.
Fontes
1. VENUTI, F. et al. Extended and Continuous Infusion of Novel Protected Β-Lactam Antibiotics: A Narrative Review. Drugs, v. 83, n. 11, p. 967–983, 2023. DOI: https://doi.org/10.1007/s40265-023-01893-6.
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3. TAMMA, P. D. et al. Infectious Diseases Society of America 2023 Guidance on the Treatment of Antimicrobial Resistant Gram-Negative Infections. Clinical Infectious Diseases, 2023. DOI: https://doi.org/10.1093/cid/ciad428.
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5. GATTI, M.; PEA, F. Continuous Versus Intermittent Infusion of Antibiotics in Gram-Negative Multidrug-Resistant Infections. Current Opinion in Infectious Diseases, v. 34, n. 6, p. 737–747, 2021. DOI: https://doi.org/10.1097/QCO.0000000000000755.
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7. EVANS, L. et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Critical Care Medicine, v. 49, n. 11, p. e1063–e1143, 2021. DOI: https://doi.org/10.1097/CCM.0000000000005337.
8. SMEKAL, A. K. et al. Short, Extended and Continuous Infusion of Β-Lactams: Impact on Target Attainment and Risk for Toxicity. Journal of Antimicrobial Chemotherapy, v. 80, n. 3, p. 876–884, 2025. DOI: https://doi.org/10.1093/jac/dkaf013.
9. RYBAK, Michael J. et al. Therapeutic monitoring of vancomycin for serious methicillin-resistant Staphylococcus aureus infections: A revised consensus guideline and review by the American Society of Health-System Pharmacists, the Infectious Diseases Society of America, the Pediatric Infectious Diseases Society, and the Society of Infectious Diseases Pharmacists. American Journal of Health-System Pharmacy, v. 77, n. 11, p. 835–864, 2020. DOI: https://doi.org/10.1093/ajhp/zxaa036.
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