As infecções intra-abdominais (IIAs) englobam um espectro de doenças que podem variar de processos inflamatórios localizados a infecções severas que exigem intervenção cirúrgica urgente. Entre as principais condições estão apendicite, colecistite, colangite e diverticulite, que frequentemente requerem diagnóstico precoce e tratamento específico para evitar complicações graves.
Neste artigo, vamos detalhar essas patologias, abordando quadro clínico, diagnóstico e tratamento de cada uma, além de discutir as IIAs complicadas, suas manifestações clínicas e estratégias terapêuticas.
Apendicite Aguda
A apendicite aguda é a principal causa de abdome agudo cirúrgico e ocorre devido à obstrução do lúmen do apêndice, levando à inflamação e possível perfuração.
🔍 Quadro Clínico
• Dor abdominal periumbilical migrando para fossa ilíaca direita.
• Náuseas e vômitos.
• Febre baixa a moderada.
• Hipersensibilidade na fossa ilíaca direita.
• Sinais de peritonite em casos complicados (defesa abdominal, rigidez e descompressão brusca positiva – Sinal de Blumberg).
📋 Diagnóstico
• Exames laboratoriais: Leucocitose com desvio à esquerda, PCR elevada.
• Ultrassonografia de abdome: Pode evidenciar apêndice dilatado (>6 mm de diâmetro) com espessamento da parede.
• Tomografia computadorizada (TC) de abdome (com contraste): Padrão-ouro, principalmente em pacientes obesos e idosos.
💊 Tratamento
• Apendicectomia laparoscópica (preferível) ou aberta.
• Antibioticoterapia em casos não complicados (pré-operatória) e em apendicites perfuradas ou abscedadas:
• Ceftriaxona + Metronidazol
• Duração: até 4 dias para casos complicados com controle de foco ou até 7 dias sem controle de foco.
Colecistite Aguda
A colecistite aguda é a inflamação da vesícula biliar, geralmente causada por obstrução do ducto cístico por cálculos biliares.
🔍 Quadro Clínico
• Dor intensa no hipocôndrio direito irradiando para dorso e ombro direito.
• Sinal de Murphy pode ser positivo ou não.
• Náuseas e vômitos.
• Febre moderada.
• Icterícia leve pode ocorrer se houver obstrução do colédoco.
📋 Diagnóstico
• Exames laboratoriais: Leucocitose, PCR elevada, aumento discreto de bilirrubinas e transaminases.
• Ultrassonografia abdominal: Método de escolha (espessamento da parede da vesícula >4 mm, líquido pericolecístico e cálculo impactado).
• TC de abdome (com contraste): Útil para avaliar complicações como perfuração e gangrena.
💊 Tratamento
• Colecistectomia laparoscópica precoce.
• Antibioticoterapia empírica em casos complicados:
• Ceftriaxona + Metronidazol
• Drenagem biliar percutânea em pacientes com contraindicação cirúrgica.
Colangite Aguda
A colangite aguda é uma infecção do sistema biliar, geralmente causada por obstrução do ducto colédoco por cálculos (coledocolitíase) ou estenoses.
🔍 Quadro Clínico
A Tríade de Charcot é característica:
✔ Febre com calafrios
✔ Icterícia
✔ Dor abdominal no hipocôndrio direito
⚠ Em casos mais graves, pode haver Hipotensão + Alteração do nível de consciência (Pêntade de Reynolds).
📋 Diagnóstico
• Exames laboratoriais: Leucocitose, elevação importante de bilirrubinas, transaminases e FA/GGT.
• Ultrassonografia de abdome: Mostra dilatação das vias biliares.
• Colangiorressonância ou CPRE (colangiopancreatografia retrógrada endoscópica): Padrão-ouro para confirmar e tratar simultaneamente (CPRE).
💊 Tratamento
• Drenagem biliar emergencial por CPRE.
• Antibioticoterapia de amplo espectro:
• Ceftriaxona + Metronidazol
Diverticulite Aguda
A diverticulite aguda ocorre devido à inflamação dos divertículos colônicos, mais comum no cólon sigmoide.
🔍 Quadro Clínico
• Dor abdominal em fossa ilíaca esquerda.
• Febre, náuseas e vômitos.
• Distensão abdominal e constipação podem estar presentes.
📋 Diagnóstico
• TC de abdome com contraste: Padrão-ouro (divertículos, espessamento da parede colônica e abscesso pericólico).
• Ultrassonografia abdominal: Alternativa quando a TC não está disponível.
💊 Tratamento
• Casos leves: Tratamento ambulatorial com dieta leve e antibióticos orais (Amoxicilina + Clavulanato).
• Casos moderados a graves: Internação com antibióticos IV (Ceftriaxona + Metronidazol).
• Complicações (abscesso, perfuração): Drenagem percutânea (abscessos > 3 a 6cm) ou cirurgia de Hartmann (se peritonite).
Infecções Intra-Abdominais Complicadas (IIA-C)
As IIAs complicadas envolvem perfuração, peritonite difusa, abscessos ou falha no controle da infecção.
🔍 Quadro Clínico
• Dor abdominal intensa e generalizada.
• Febre alta e sinais de sepse.
• Distensão abdominal e ausência de peristaltismo.
• Sinais de peritonite (descompressão brusca positiva).
📋 Diagnóstico
• TC de abdome com contraste: Exame essencial para guiar a abordagem terapêutica.
• Hemoculturas e cultura do líquido peritoneal são indicadas em pacientes críticos.
💊 Tratamento
✔ Cirurgia emergencial para controle do foco infeccioso.
✔ Drenagem percutânea para abscessos quando possível.
✔ Antibioticoterapia de amplo espectro:
• Ceftriaxona + Metronidazol;
• Piperacilina + Tazobactam ou Cefepime + Metronidazol (em pacientes sépticos com alto risco de desfecho desfavorável).
• Vancomicina para cobertura de MRSA se necessário.
✔ Reposição volêmica e suporte hemodinâmico na sepse.
Conclusão
As infecções intra-abdominais são emergências médicas e exigem abordagem rápida para evitar complicações graves. O reconhecimento precoce dos sinais clínicos e a escolha do tratamento adequado são essenciais para reduzir a morbimortalidade.
O manejo inclui controle do foco infeccioso (cirurgia ou drenagem), suporte clínico e antibioticoterapia direcionada, sempre considerando fatores individuais como idade, comorbidades e gravidade do quadro.
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Fontes
1. World Society of Emergency Surgery (WSES). Guidelines for the management of intra-abdominal infections, 2021.
2. Sartelli, M. et al. Management of intra-abdominal infections: a global clinical guideline, World Journal of Emergency Surgery, 2021.
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