Biomarcadores Inflamatórios nas Doenças Infecciosas: Quando a Resposta Está no Sangue

Imagine a seguinte situação: uma criança chega à emergência com febre sem foco aparente. Ou um paciente grave na UTI apresenta novo episódio febril. O que fazer? Iniciar antibiótico? Esperar exames? Observar?
 
Nesse momento, os biomarcadores inflamatórios podem ser nossos aliados silenciosos — capazes de orientar decisões críticas, reduzir o uso desnecessário de antibióticos e, principalmente, salvar vidas.
 
Mas entre PCR, PCT, IL-6, sPLA2-IIA, HBP, HNL, IP-10, TRAIL… qual escolher? Quais realmente funcionam na prática clínica?
 
Neste artigo, vamos explorar os biomarcadores mais relevantes nas doenças infecciosas, seus fundamentos, aplicações práticas e evidências científicas por trás do seu uso.
 

O que são biomarcadores e por que usá-los?

Biomarcadores são moléculas liberadas pelo organismo em resposta a processos inflamatórios, infecciosos ou lesivos. Em doenças infecciosas, funcionam como “sinais biológicos” que ajudam a:
Diferenciar infecções bacterianas de virais ou quadros inflamatórios não infecciosos
Indicar gravidade ou risco de bacteremia
Monitorar resposta ao tratamento
Auxiliar na decisão de iniciar ou suspender antibióticos
 
Contudo, nenhum biomarcador substitui a avaliação clínica. Eles devem ser utilizados como ferramentas complementares à anamnese, exame físico e outros exames laboratoriais ou de imagem.
 

Os principais biomarcadores: do mais usado ao mais promissor

Proteína C Reativa (PCR)
• Um dos mais utilizados no mundo todo.
• É uma proteína de fase aguda produzida pelo fígado em resposta à IL-6.
• Começa a subir após 6h do estímulo inflamatório, com pico em 36–48h.
 
Desempenho diagnóstico
Sensibilidade: 75-92%
Especificidade: 40-70%
AUC (área sob a curva) de acurácia diagnóstica: entre 0,73 e 0,80
 

Limitações

Pode se elevar em qualquer inflamação: trauma, cirurgia, doenças autoimunes, neoplasias.
Não diferencia bem entre infecção bacteriana e viral.
 
Utilidade prática
Boa para acompanhar resposta ao tratamento. Ideal em cenários em que a PCT não está disponível.
 
Procalcitonina (PCT) – A queridinha da infectologia moderna
• Precursor da calcitonina, produzido em diversos tecidos em resposta a toxinas bacterianas.
Aumenta já nas primeiras 4–6h de infecção bacteriana, com pico em 12–24h.
Menos influenciada por processos virais (é inibida pelo Interferon-gama elevado em infecções virais) ou inflamatórios não infecciosos.
 
Desempenho diagnóstico
Sensibilidade: >85%
Especificidade: >85%
AUC: frequentemente acima de 0,90
 
Indicações práticas
Diferenciar infecção bacteriana de quadros virais/SIRS.
Predizer bacteremia e gravidade.
Monitorar descalonamento de antibióticos em UTI (queda ≥80% ou <0,05 ng/mL após melhora clínica).
Também pode ser útil em imunossuprimidos, para acompanhar surgimento de infecções secundárias ou oportunistas.
 
Vantagem adicional
Melhor custo-benefício quando usada com critérios clínicos bem definidos.
 
sPLA2-IIA (secretory phospholipase A2 group IIA) – O novo concorrente de peso
 
• Enzima que participa da resposta inflamatória e degrada membranas bacterianas.
• Demonstrou sensibilidade de 80% e especificidade de 94%, superando PCR e até PCT em certos cenários.
 
Ainda em fase de consolidação, mas mostra-se promissor como marcador isolado ou em combinação.
 

Combos de biomarcadores: o futuro está na sinergia

Uma das abordagens mais eficazes tem sido combinar marcadores com mecanismos complementares.
 
Exemplo: PCR + IP-10 + TRAIL
IP-10: associado à resposta viral
TRAIL: apoptose e modulação imune
PCR: inflamação geral
 
Essa combinação alcançou sensibilidade >90% e especificidade >80% para diferenciar infecções bacterianas em crianças com febre sem foco.
 
Outros biomarcadores promissores:
IL-6: rápida resposta, mas pouco específico
HBP (Heparin-Binding Protein): relacionado à disfunção endotelial
HNL (Neutrophil Lipocalin): bom desempenho, mas pouco disponível
 
Ainda não superam a robustez da PCT em termos de validação clínica ampla.
 

Como interpretar os valores de PCT e PCR?

A interpretação dos biomarcadores deve ser feita com base na cinética, no contexto clínico e na evolução do paciente. A seguir, um guia prático com os valores mais utilizados na rotina médica:
 
Interpretação da Procalcitonina (PCT) (ng/mL)
 
A procalcitonina é altamente específica para infecção bacteriana e tem rápido tempo de resposta, o que a torna ideal para avaliação inicial e monitoramento de resposta.
PCT < 0,1 ng/mL: infecção bacteriana muito improvável. Na maioria dos casos, antibióticos podem ser evitados, exceto em situações de risco como imunossuprimidos ou infecções muito precoces/localizadas.
PCT entre 0,1 e 0,25 ng/mL: baixa probabilidade de infecção bacteriana. Reavaliação clínica é essencial; repetir a dosagem em 12-24h pode auxiliar na tomada de decisão.
PCT entre 0,25 e 0,5 ng/mL: zona cinzenta. A conduta deve ser individualizada, considerando sinais clínicos, outros exames e evolução.
PCT > 0,5 ng/mL: forte sugestão de infecção bacteriana sistêmica. Justifica o início ou manutenção da antibioticoterapia.
PCT > 2,0 ng/mL: fortemente sugestivo de sepse ou infecção grave. Sinal de alerta para início ou intensificação imediata da terapia antimicrobiana.
 
Exemplo prático de interpretação de PCT em Pneumonia Adquirida na Comunidade:
Interpretação da Proteína C Reativa (PCR) (mg/L)
 
A PCR é um marcador inespecífico de inflamação que se eleva mais lentamente, com meia-vida prolongada, sendo útil no acompanhamento da resposta clínica.
PCR < 10 mg/L: normal. Afasta infecção bacteriana significativa na maioria dos casos.
PCR entre 10 e 40 mg/L: elevação leve, frequentemente associada a infecções virais ou inflamações inespecíficas.
PCR entre 40 e 100 mg/L: elevação moderada, que pode sugerir infecção bacteriana, principalmente se houver achados clínicos compatíveis.
PCR > 100 mg/L: elevação importante. Fortemente sugestiva de infecção bacteriana grave, sepse ou processo inflamatório sistêmico intenso.
 
A PCR pode permanecer elevada por vários dias mesmo após resolução clínica, devendo ser interpretada sempre em conjunto com a evolução do quadro.
 

Na vida real, quando e como solicitar?

A interpretação adequada exige o contexto clínico correto. Abaixo, os principais cenários:
 
1. Febre aguda sem foco
PCT e PCR são recomendados em conjunto, principalmente em crianças, para orientar o uso racional de antibióticos.
 
2. Paciente internado, especialmente em UTI
PCT orienta suspensão segura ou descalonamento de antibiótico quando:
• Queda ≥80% do valor de pico (>1,0 ng/mL)
• Valor ≤0,05 ng/mL com estabilidade clínica
• É fundamental seriar a PCT a cada 24-48h para avaliar a resposta ao tratamento antimicrobiano
 
PCT persistentemente elevada pode indicar falha terapêutica, foco não controlado ou infecção não bacteriana resistente ao tratamento instituído.
 
3. Diferenciação entre infecção viral, inflamação estéril e infecção bacteriana
PCT tem maior acurácia para diferenciar infecção bacteriana de causas não infecciosas de febre aguda ou causas virais. É recomendado em casos de dúvida.
 
4. PCR no pós-operatório recente (2º–3º dia)
É esperado que a PCR atinja até 200 mg/L nesse período, sem que isso represente infecção. A queda progressiva em 5 a 7 dias é o padrão fisiológico.
 
5. PCR ainda elevada após o 3º dia de pós-operatório
Deve-se suspeitar de complicações infecciosas, como abscesso, infecção de ferida operatória ou pneumonia nosocomial.
 
6. Queda de ≥22 mg/L nas primeiras 48h de antibioticoterapia
Está associada à boa resposta clínica ao tratamento antibiótico. Estudos apontam sensibilidade de 77% e especificidade de 67% para essa variação da PCR como marcador de eficácia terapêutica precoce.
 

Limitações e armadilhas

• Níveis de PCT podem estar falsamente baixos em infecções localizadas (ex: celulite, abscessos) ou muito precoces.
• Níveis de PCT podem estar falsamente aumentados em cirurgias de grande porte, politraumatizados ou extensamente queimados, pancreatite ou infecções virais graves (como SRAG por Influenza ou COVID-19).
PCR elevada isoladamente não é sinônimo de infecção — evite decisões precipitadas com base em um único exame.
Valores de corte podem variar com idade, imunossupressão e contexto clínico. Use laboratórios com faixas de referência claras.

Conclusão: biomarcadores podem ser grandes aliados

Os biomarcadores representam um dos maiores avanços na abordagem das infecções agudas. Mas, como toda ferramenta poderosa, exigem conhecimento, critério e contexto.

 

A procalcitonina vem se consolidando como o marcador mais confiável para diferenciar infecção bacteriana, orientar início/suspensão de antibióticos e monitorar resposta terapêutica — especialmente em UTI.

 

Combinações de biomarcadores como PCR + IP-10 + TRAIL prometem levar esse diagnóstico de precisão a outro patamar — principalmente na pediatria.

 

No final, o segredo não está em pedir mais exames, mas em usar melhor o que temos. Com inteligência, evidência e visão clínica. Para mais informações atualizadas e fundamentais da prática diária, continue acompanhando o blog da InfectoFlix para receber Infectologia em bolus!

Fontes

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