Um alerta veio da Califórnia: em agosto de 2025, um morador de South Lake Tahoe foi diagnosticado com peste bubônica, também conhecida como peste negra. O caso, associado a uma provável picada de pulga infectada durante um acampamento, reacendeu o debate sobre a presença silenciosa da Yersinia pestis em áreas rurais do Oeste dos Estados Unidos.
O paciente encontra-se em tratamento domiciliar, estável, mas a notícia teve repercussão global. Afinal, estamos falando da mesma bactéria que, séculos atrás, dizimou populações inteiras na Europa.
Nesta matéria, você vai entender:
• O que foi reportado no caso dos EUA,
• A trajetória histórica da peste e sua epidemiologia atual, incluindo no Brasil,
• Como a doença se desenvolve, se transmite e se manifesta clinicamente,
• Estratégias diagnósticas e tratamento segundo diretrizes,
• E as novas evidências científicas publicadas no New England Journal of Medicine em 2025.
O caso da Califórnia em 2025: a peste bubônica reaparece
Em agosto de 2025, autoridades de saúde pública da Califórnia confirmaram um novo caso de peste bubônica em um residente de South Lake Tahoe, no condado de El Dorado, região da Sierra Nevada.
1. Circunstâncias da infecção
• O paciente havia participado de um acampamento em área rural da Bacia de Tahoe, onde roedores silvestres são comuns.
• A hipótese mais provável é de transmissão por picada de pulga infectada.
• Ele apresentou sintomas compatíveis com a forma bubônica e, após confirmação laboratorial, iniciou tratamento antibiótico.
2. Estado clínico do paciente
• O indivíduo encontra-se em recuperação em casa, com quadro considerado estável.
• As autoridades locais reforçaram que não há risco aumentado de transmissão pessoa a pessoa, já que se trata da forma bubônica, e não pneumônica.
3. Epidemiologia regional
• A peste não é nova no Oeste dos EUA: em média, 7 casos humanos são reportados por ano, principalmente nos estados da Califórnia, Arizona, Novo México e Colorado.
• O condado de El Dorado já havia registrado casos anteriores:
• 2020: outro residente de South Lake Tahoe foi diagnosticado;
• 2015: dois casos ocorreram após visita ao Parque Nacional de Yosemite.
4. Reservatórios e vigilância ambiental
• A Yersinia pestis circula de forma enzoótica entre roedores silvestres (esquilos, tânicos, marmotas) da região.
• Entre 2021 e 2024, 41 roedores foram identificados como infectados, além de outros 4 em 2025, na mesma área.
• Esses achados reforçam que a peste persiste de forma silenciosa nos ecossistemas locais, podendo ocasionalmente atingir humanos.
5. Contexto de alerta internacional
• O caso da Califórnia ocorreu poucas semanas após a notificação de um óbito por peste pneumônica no Arizona (julho/2025), evento que elevou o nível de vigilância epidemiológica.
• Embora raros, esses episódios lembram que a peste segue sendo uma zoonose de importância global e que requer diagnóstico rápido e tratamento imediato para evitar desfechos fatais.
Em resumo: o caso norte-americano de 2025 não representa risco de epidemia, mas serve como lembrete de que a peste bubônica ainda circula em reservatórios animais e pode emergir em humanos em regiões endêmicas. A chave está na suspeita clínica precoce e no início imediato do tratamento.
Da Idade Média aos dias atuais: a longa sombra da peste
A Yersinia pestis é uma bactéria Gram-negativa transmitida principalmente pela picada da pulga Xenopsylla cheopis, parasita de roedores. Foi responsável por três grandes pandemias históricas:
• Século VI (Peste de Justiniano): milhões de mortes na região do Mediterrâneo,
• Século XIV (Peste Negra): responsável por dizimar cerca de 1/3 da população europeia,
• Século XIX (Terceira pandemia): partindo da Ásia, alcançou todos os continentes.
Apesar do declínio, a doença permanece endêmica em áreas rurais da África, Ásia e Américas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 248 casos foram reportados em 2018, concentrados em Madagascar e na República Democrática do Congo.
Epidemiologia e transmissibilidade
Segundo o Ministério da Saúde do Brasil, a peste é uma zoonose de alta gravidade e de notificação compulsória.
• Reservatórios: roedores silvestres (ratos, esquilos, marmotas).
• Vetores: pulgas infectadas, capazes de transmitir a bactéria ao picar humanos.
• Transmissão secundária: pode ocorrer pelo contato direto com secreções de animais doentes ou, nas formas pulmonares, por gotículas respiratórias entre humanos.
A suscetibilidade humana é universal, e surtos podem emergir quando há desequilíbrio entre populações de roedores e vetores.
Epidemiologia da Peste no Brasil
A peste bubônica tem uma história marcante no Brasil, sobretudo na região Nordeste, onde se consolidaram os principais focos de circulação da Yersinia pestis. Desde a introdução da doença no início do século XX, relacionada ao porto de Santos e à disseminação pelo transporte marítimo e ferroviário, a infecção encontrou nas populações de roedores e pulgas nordestinos um ecossistema favorável para se perpetuar. Estados como Ceará, Pernambuco, Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Piauí foram os mais afetados, estabelecendo-se como áreas endêmicas clássicas do país.
Entre 1935 e 2005, o Brasil notificou cerca de 1.546 casos humanos de peste, com destaque para surtos esporádicos em pequenas comunidades rurais. A maioria dos casos apresentava a forma bubônica, associada ao contato estreito com roedores silvestres e domésticos e à presença de pulgas infectadas. Após 2005, não houve novos registros humanos confirmados, mas a circulação da bactéria em reservatórios e vetores segue ativa, o que mantém o risco de reemergência da doença em determinadas condições ambientais e sociais.
Os principais hospedeiros no Brasil incluem roedores como Necromys, Cerradomys, Calomys, Oligoryzomys e o rato doméstico Rattus rattus, além de espécies como Galea e Trychomys. Entre os marsupiais, o Monodelphis domestica também pode participar do ciclo durante epizootias. As pulgas desempenham papel essencial como vetores, destacando-se a Xenopsylla cheopis e espécies do gênero Polygenis, além da Pulex irritans, capaz de infectar humanos e animais domésticos.
Apesar da ausência de casos recentes em pessoas, a peste permanece como uma zoonose de importância epidemiológica no país. A vigilância ativa continua sendo necessária, principalmente porque fatores como alterações ambientais, desequilíbrios na população de roedores e mudanças climáticas podem favorecer novos episódios de transmissão. Assim, o Brasil mantém programas de monitoramento em áreas consideradas focos naturais, reconhecendo que a peste, embora rara no cenário atual, continua sendo uma ameaça potencial que exige atenção constante dos serviços de saúde.
Fisiopatologia da Peste Bubônica
A Yersinia pestis é um Gram-negativo altamente virulento, dotado de múltiplos fatores de evasão imunológica. Sua fisiopatologia explica a rapidez e gravidade da evolução clínica.
1. Entrada e inoculação
• Ocorre principalmente pela picada de pulgas infectadas (Xenopsylla cheopis e outras).
• Durante a sucção de sangue, a pulga regurgita bacilos para a pele humana.
• A bactéria penetra pela lesão dérmica e migra via vasos linfáticos para os linfonodos regionais .
2. Disseminação linfática: formação do bubão
• No linfonodo, a Y. pestis se multiplica rapidamente, induzindo:
• Inflamação intensa,
• Necrose hemorrágica,
• Trombos locais.
• Esse processo leva à formação do bubão pestoso, característico da forma bubônica.
• Sem tratamento, os linfonodos infectados podem fistulizar, liberando bacilos viáveis para o exterior .
3. Escape imunológico
A Y. pestis possui fatores de virulência que bloqueiam a resposta imune inata:
• Cápsula F1: impede fagocitose eficiente.
• Yops (Yersinia outer proteins): inibem a ativação de macrófagos e neutrófilos, bloqueando a produção de citocinas pró-inflamatórias.
• Endotoxina (LPS): contribui para febre, inflamação sistêmica e choque séptico.
4. Bacteremia e toxemia
• Após alguns dias, os bacilos atingem a circulação sistêmica → bacteremia.
• A ação direta da bactéria e de suas toxinas sobre endotélio e capilares provoca:
• Hemorragias difusas,
• Necrose tecidual,
• Fenômenos de coagulação intravascular disseminada (CIVD).
• Esse estágio corresponde ao período toxêmico, com febre alta, toxemia intensa e risco de evolução para choque .
5. Disseminação secundária
• Peste septicêmica: ocorre quando a bacteremia se instala precocemente, sem formação de bubões. Evolui rapidamente para choque séptico.
• Peste pneumônica: pode ocorrer por disseminação hematogênica para os pulmões ou por transmissão direta de pessoa a pessoa (via gotículas). A instalação é abrupta, com pneumonia necrosante fulminante.
6. Resolução ou morte
• Com tratamento antibiótico precoce → regressão dos bubões e clearance bacteriano em poucos dias.
• Sem tratamento → evolução natural para falência orgânica múltipla em 2 a 6 dias na peste bubônica, e em apenas 1 a 3 dias na peste pneumônica
A doença: manifestações clínicas
O Ministério da Saúde (2024) reforça que o período de incubação varia entre 2 e 6 dias, e a evolução pode ser fulminante sem tratamento precoce (letalidade excede 60%).
1. Formas clínicas principais
• Peste bubônica (mais comum, 70–80% dos casos):
• Febre alta de início súbito, calafrios, cefaleia intensa, mialgia, fadiga.
• Bubões: linfonodos aumentados, dolorosos e endurecidos, geralmente em regiões inguinais, axilares ou cervicais.
• Pode evoluir para supuração e necrose dos linfonodos.
• Sem tratamento, pode progredir para septicemia ou até peste pneumônica secundária por disseminação hematogênica.
• Peste pneumônica (a mais grave e transmissível):
• Incubação curta: 1 a 3 dias.
• Quadro respiratório abrupto: febre alta, tosse produtiva, dor torácica, dispneia intensa, hemoptise.
• Evolução rápida para insuficiência respiratória e choque séptico.
• É a única forma de transmissão pessoa a pessoa, por gotículas respiratórias.
• Sem antibiótico imediato, a letalidade pode chegar a quase 100%.
• Peste septicêmica (primária ou secundária):
• Quadro de sepse grave sem formação de bubão.
• Pode se apresentar com choque séptico, coagulação intravascular disseminada (CIVD), púrpura, gangrena de extremidades.
• Muitas vezes é diagnosticada apenas em necropsia devido à rapidez da evolução.
2. Manifestações comuns associadas
• Mal-estar intenso, astenia profunda.
• Náuseas, vômitos e dor abdominal.
• Sinais cutâneos: petéquias, necrose distal (em septicemia).
• Alteração do estado mental em formas graves (delírio, confusão, coma).
3. Marcadores de gravidade
• Início abrupto e rápida progressão da febre com toxemia.
• Bubões múltiplos ou com necrose extensa.
• Comprometimento respiratório precoce.
• Sinais de choque séptico refratário.
A peste pode se apresentar de forma variável, mas a tríade “febre alta + toxemia intensa + bubão doloroso” deve sempre acender o alerta clínico. Já a forma pneumônica exige atenção redobrada, por sua alta transmissibilidade e letalidade quase absoluta sem tratamento imediato.
Diagnóstico da Peste Bubônica: como identificar o inimigo
O diagnóstico da peste é sempre um desafio clínico-epidemiológico. O atraso pode custar vidas, já que a evolução pode ser fulminante. Por isso, qualquer suspeita exige início imediato de antibiótico, sem aguardar confirmação laboratorial .
1. Suspeita clínica
• Epidemiologia: histórico de exposição em áreas endêmicas, contato com roedores ou pulgas, ou vínculo com caso confirmado.
• Clínica típica: febre alta de início súbito, calafrios, prostração e presença de bubões (linfonodos aumentados, dolorosos, geralmente em região inguinal, axilar ou cervical).
• Outras formas: tosse com hemoptise e insuficiência respiratória (peste pneumônica), ou choque séptico sem bubão evidente (peste septicêmica).
2. Métodos laboratoriais
De acordo com o Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (2024) e a literatura internacional , os principais métodos são:
• Cultura (padrão-ouro)
• Amostras: aspirado de bubão, sangue, escarro (em caso de peste pneumônica).
• Permite identificação definitiva da Yersinia pestis.
• Limitação: demora no crescimento, requer biossegurança NB3.
• Exames rápidos (mesmas amostras que a cultura)
• Teste de antígeno F1: pode ser feito em campo, resultado rápido, mas deve ser confirmado por cultura ou PCR.
• PCR (qPCR para Y. pestis): alta sensibilidade e especificidade, quando disponível.
• Sorologia para Y. pestis
• Útil para confirmação tardia.
• Critério: soroconversão ou aumento de 4 vezes no título de anticorpos entre fase aguda e convalescente.
• Limitação: pouco útil para diagnóstico precoce.
3. Critérios diagnósticos
Um caso é considerado confirmado quando:
✔️ Cultura positiva para Y. pestis,
✔️ PCR detecta o DNA da bactéria,
✔️ Teste de antígeno F1 é reagente,
✔️ Sorologia pareada demonstra soroconversão.
Um único teste positivo em paciente com clínica e epidemiologia compatíveis já deve ser interpretado como confirmação.
4. Diagnóstico diferencial
A peste pode simular outras doenças infecciosas graves:
• Linfadenite bacteriana,
• Tularemia,
• Bartonelose (doença da arranhadura do gato),
• Mononucleose infecciosa,
• Sepses por Gram-negativos ou meningococcemia.
Na forma pneumônica, o principal diferencial é a pneumonia bacteriana fulminante.
5. Vigilância laboratorial
O Brasil possui laboratórios de referência habilitados para diagnóstico da peste, e todo material deve ser encaminhado segundo normas de biossegurança.
A recomendação é: iniciar tratamento imediato, coletar amostras antes da primeira dose, e notificar o caso compulsoriamente.
Tratamento da Peste Bubônica: cada hora conta
O tratamento da peste é uma emergência médica. O atraso de apenas 24h pode significar a diferença entre cura e óbito.
1. Princípios gerais
• Iniciar o tratamento o mais precocemente possível.
• Escolha do antibiótico deve considerar: forma clínica, disponibilidade, perfil de segurança.
• O manejo inclui também suporte clínico (hidratação, analgesia, monitorização hemodinâmica).
• Pacientes com peste pneumônica exigem isolamento respiratório.
2. Antibióticos recomendados
A antibioticoterapia deve ser iniciada o mais rápido possível, sem aguardar exames laboratoriais, devido à gravidade e à rapidez da progressão clínica. A recomendação é instituir antibiótico até 15 horas após o início dos sintomas.
Aminoglicosídeos (drogas de escolha)
• Estreptomicina: 1 g ou 30 mg/kg/dia, IM, a cada 12h, por 10 dias (máximo 2 g/dia). Considerada o antibiótico mais eficaz.
• Gentamicina: Adultos: 5 mg/kg/dia IV/IM; Crianças: 7,5 mg/kg/dia IV/IM, por 10 dias. É a melhor opção, incluindo gestantes e crianças.
• Amicacina: 15 mg/kg/dia IV/IM a cada 12h, por 10 dias. Alternativa quando houver resistência à amicacina.
• Meningites: aminoglicosídeos devem ser associados ao cloranfenicol.
Fluoroquinolonas (alternativas comparáveis à estreptomicina)
• Ofloxacino: 400 mg VO a cada 12h.
• Levofloxacino: 500 mg VO a cada 24h.
• Ciprofloxacino: 500–750 mg VO a cada 12h, ou 40 mg/kg/dia em crianças, por 10 dias.
• Em situações críticas: ofloxacino 400 mg IV a cada 12h ou a cada 8h; levofloxacino 500 mg IV a cada 24h.
• Uso em crianças deve ser criterioso.
Cloranfenicol
• Droga de eleição para complicações tissulares e graves (peste meningite, septicemia, pneumonia/pleurite). Também é válido para casos de resistência aos aminoglicosídeos.
• Dose: 50 mg/kg/dia VO/IV, 6/6h, por 10 dias.
• Sempre considerar associação com aminoglicosídeos para melhores resultados.
Tetraciclinas
• Eficazes nas formas não complicadas.
• Adultos: 25–50 mg/kg/dia VO, 6/6h, máx. 2 g/dia, por 10 dias.
• Doxiciclina:
• Ataque: 200 mg VO.
• Manutenção: 100 mg VO a cada 12h, por 10 dias.
• Crianças >45 kg: mesma dose de adultos.
• Crianças <45 kg: 2,2 mg/kg/dose VO a cada 12h.
Sulfamidas (segunda linha)
• Usar apenas quando drogas mais potentes não estiverem disponíveis.
• Sulfadiazina: Ataque de 2–4 g; manutenção de 1 g VO a cada 6h, por 10 dias.
• Trimetoprim-sulfametoxazol (cotrimoxazol):
• Adultos: 160/800 mg VO a cada 12h.
• Crianças: 8 mg/kg/dia de trimetoprim, VO a cada 12h, por 10 dias.
• Usado principalmente na peste ganglionar.
3. Gestantes e crianças
• Importante cuidado na escolha da droga devido a efeitos adversos.
• Aminoglicosídeos (gentamicina) são considerados seguros e são a indicação formal para gestantes.
4. Tratamento de suporte
• Isolamento estrito nas primeiras 48 horas de tratamento, devido ao risco de evolução para peste pneumônica.
• Internação em unidade com capacidade de monitorização intensiva.
• Correção de distúrbios hidroeletrolíticos e suporte clínico dinâmico.
Confira os esquemas de tratamento e profilaxia preconizados no Brasil:
O Estudo IMASOY (NEJM, 2025): Ciprofloxacino em foco
Até recentemente, o tratamento da peste bubônica baseava-se em evidências frágeis, com esquemas recomendados a partir de observações clínicas e dados limitados. O ensaio clínico IMASOY trouxe a primeira evidência robusta em larga escala sobre a eficácia de regimes antibióticos contra a Yersinia pestis.
1. Desenho do estudo
• Local: Madagascar, país endêmico para peste.
• Período: 2020–2024.
• Participantes: 450 pacientes com suspeita clínica de peste bubônica, dos quais 220 tinham diagnóstico confirmado e 2 tinham diagnóstico provável.
• Idade mediana: 14 anos (2 a 72 anos), predominando jovens e adolescentes.
• Desenho: Ensaio clínico randomizado, aberto, de não inferioridade.
• Intervenções comparadas:
• Ciprofloxacino oral (500 mg 12/12h por 10 dias) — monoterapia.
• Aminoglicosídeo (estreptomicina ou gentamicina por 3 dias) + ciprofloxacino oral (7 dias) — esquema sequencial padrão.
• Desfecho primário: falha terapêutica no 11º dia, definida como:
• óbito,
• febre persistente,
• evolução para peste pneumônica,
• ou necessidade de tratamento alternativo.
2. Resultados principais
• Falha terapêutica:
• Ciprofloxacino: 9,0% (10/111).
• Aminoglicosídeo–ciprofloxacino: 8,1% (9/111).
• Diferença: 0,9 p.p. (IC 95%: –6,0 a 7,8) → não inferioridade confirmada.
• Mortalidade:
• 5 pacientes no grupo cipro, 4 no grupo combinado (≈4%).
• Complicações:
• Peste pneumônica secundária ocorreu em 3 pacientes em cada grupo.
• Segurança:
• Eventos adversos semelhantes: 18,0% (cipro) vs. 18,9% (combinado).
• Reações adversas graves: ≈6–7%, nenhuma atribuída diretamente ao fármaco.
3. Análises adicionais
• A eficácia foi consistente em todas as análises secundárias (intenção de tratar, per-protocolo, análises de sensibilidade).
• Um endpoint exploratório que incluía redução <25% no tamanho do bubão até o dia 11 não atingiu critério de não inferioridade para o ciprofloxacino, mas os autores destacaram que esse parâmetro não é clinicamente robusto e sofre variações de medida.
4. Implicações clínicas
• O estudo mostrou que o ciprofloxacino oral isolado é eficaz e seguro, podendo simplificar o tratamento, especialmente em regiões com recursos limitados.
• Comparado ao esquema com aminoglicosídeo, o ciprofloxacino:
• É mais barato (≈ US$ 0,75 vs. US$ 6,50–14,00 por injetáveis),
• Evita internações prolongadas e necessidade de aplicações injetáveis,
• Tem melhor penetração tecidual e intracelular,
• Pode ser usado com maior viabilidade em surtos comunitários.
5. Limitações
• Estudo aberto (sem cegamento), ainda que multicêntrico.
• Realizado em Madagascar, pode haver diferenças epidemiológicas em outras regiões.
• Excluiu gestantes, grupo que continua sendo tratado segundo protocolos distintos.
O IMASOY é um divisor de águas no tratamento da peste bubônica. Pela primeira vez, temos evidência sólida de que 10 dias de ciprofloxacino oral podem ser tão eficazes quanto o regime clássico com aminoglicosídeos — abrindo caminho para diretrizes mais simples, acessíveis e potencialmente mais aplicáveis em cenários endêmicos e emergenciais.
Moral da história
A peste bubônica não é apenas um fantasma medieval: ela continua viva em nichos ecológicos ao redor do mundo, pronta para ressurgir quando o homem invade seus territórios.
O caso da Califórnia é um lembrete de que a vigilância epidemiológica e o tratamento precoce são as principais armas contra velhos inimigos.
E a ciência mostra que, mesmo frente a uma doença milenar, novas evidências podem transformar a prática clínica, tornando o manejo mais eficaz, simples e acessível.
Cada bubão diagnosticado a tempo pode ser a diferença entre a vida e a morte.
Fontes
1. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. Volume 3. 6ª ed., 2024.
2. RANDREMANANA, R.V. et al. Ciprofloxacin versus Aminoglycoside–Ciprofloxacin for Bubonic Plague. N Engl J Med, v. 393, n. 6, p. 544–555, 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2413772 .
3. WHO. Plague Fact Sheet. 2018.
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