Imagine a seguinte situação: um homem cisgênero que faz sexo com outros homens chega à consulta relatando dificuldade em manter o uso diário da PrEP oral. Em outro cenário, uma jovem na África Subsaariana ou mesmo no Brasil, vulnerável à infecção pelo HIV, se perde no sistema de saúde por não conseguir comparecer mensalmente à unidade.
Ambos os casos refletem desafios reais da PrEP diária, principalmente entre populações de maior risco. Foi nesse contexto que surgiu o Lenacapavir, o primeiro antirretroviral de ação prolongada aprovado para profilaxia pré-exposição com injeção subcutânea a cada seis meses. Um marco histórico na luta contra o HIV.
Neste artigo, você vai entender:
• Como o Lenacapavir atua no ciclo do HIV
• O que dizem os estudos PURPOSE 1 e 2
• A posição da OMS e da FDA
• Seus impactos na adesão, equidade e acesso à PrEP
O que é Lenacapavir?
O Lenacapavir é um inibidor do capsídeo do HIV-1 — o primeiro de sua classe. Ele age em múltiplos pontos do ciclo viral, o que o diferencia de todos os antirretrovirais disponíveis até então.
Mecanismo de ação
O alvo do Lenacapavir é a proteína p24 do capsídeo viral, fundamental para:
• A estabilidade do core viral
• O transporte do DNA viral para o núcleo
• A montagem e liberação de novos vírions
Ao bloquear essa estrutura, o Lenacapavir interrompe tanto etapas precoces quanto tardias da replicação viral.
Isso confere a ele uma atividade multistágios, com eficácia e alta barreira genética a mutações até mesmo frente a cepas resistentes a outras classes de antirretrovirais. E por ter uma meia-vida extremamente longa, permite posologia inédita: uma injeção subcutânea a cada 6 meses (927 mg).
Lenacapavir no tratamento do HIV multirresistente: um novo arsenal contra a falha virológica
Antes de ser estudado como PrEP, o Lenacapavir já havia se destacado como uma poderosa opção para pacientes com HIV-1 altamente resistente a múltiplas classes de antirretrovirais — aqueles casos em que as terapias padrão já não surtem mais efeito.
Essa indicação já foi aprovada pela FDA desde 2022, com base no estudo pivotal CAPELLA, publicado no New England Journal of Medicine.
Estudo CAPELLA – HIV multirresistente
• População: 72 adultos com HIV-1, com falência virológica ativa e resistência documentada a ≥2 classes de antirretrovirais
• Design: fase 2/3, randomizado, controlado, com grupo placebo
• Intervenção:
• Lenacapavir SC a cada 6 meses + esquema de base otimizado (OART)
• Esquema inicial incluiu 14 dias de Lenacapavir oral antes da injeção
Resultados
• Redução ≥0,5 log₁₀ da carga viral em 88% dos pacientes do grupo Lenacapavir após 14 dias (vs. 17% no grupo placebo)
• Supressão viral (<50 cópias/mL) em 81% dos pacientes aos 52 semanas
• Aumento médio de CD4+ em 81 células/mm³ em um ano
Destaques
• Alta potência antiviral mesmo frente a mutações múltiplas
• Sem resistência cruzada com outras classes
• Boa tolerabilidade e adesão favorecida pela posologia semestral
• Principal evento adverso: reação no local da injeção (geralmente leve)
Lenacapavir como PrEP e o Estudo revolucionário PURPOSE 1 – Mulheres jovens africanas
Contexto:
Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, multicêntrico, publicado no New England Journal of Medicine em outubro de 2024. Avaliou a eficácia do Lenacapavir na prevenção do HIV em adolescentes e mulheres jovens da África Subsaariana — uma das populações mais vulneráveis à epidemia global.
População: 5338 mulheres cisgênero, 16–25 anos, sexualmente ativas, sem uso prévio de PrEP.
Intervenções:
• Lenacapavir SC 2x/ano
• F/TAF diário
• F/TDF diário (controle)
Resultados
• Lenacapavir: 0 infecções
• F/TAF: 39 infecções
• F/TDF: 16 infecções
•Incidência de fundo: 2,41/100 pessoa-anos
Incidência com Lenacapavir: 0/100 pessoa-anos
Redução de risco: 100% em relação ao controle
p<0,001 para superioridade frente ao F/TDF
Adesão excelente ao Lenacapavir.
Baixa adesão aos regimes orais: apenas 43% com níveis plasmáticos considerados protetores.
A amostra aumentou: Estudo PURPOSE 2 – Homens, trans e não-binários
Contexto:
Publicação do NEJM em abril de 2025. Avaliou o uso do Lenacapavir em homens cisgênero gays, mulheres trans, homens trans e pessoas de gênero não-binário — populações com alta vulnerabilidade ao HIV e baixa retenção na PrEP diária.
População: 3265 participantes
Intervenções:
• Lenacapavir SC 2x/ano
• F/TDF diário (controle)
Resultados
• Lenacapavir: 2 infecções (0,10/100 pessoa-anos)
• F/TDF: 9 infecções (0,93/100 pessoa-anos)
• Incidência de fundo: 2,37/100 pessoa-anos
Redução de 96% do risco comparado à incidência basal
Redução de 89% do risco em relação ao F/TDF (p = 0,002)
Reações no local da injeção foram a principal causa de descontinuação (1,2%), mas geralmente leves.
OMS e FDA: recomendação oficial em 2025
A Food and Drug Administration autorizou o uso do Lenacapavir como PrEP em junho de 2025 e a Organização Mundial da Saúde lançou diretrizes na última segunda-feira recomendando o Lenacapavir como opção adicional de PrEP de longa duração, com forte nível de evidência (recomendação forte, evidência de qualidade moderada a alta).
Público-alvo:
• Pessoas com risco elevado para HIV
• Grupos com barreiras à adesão diária
• Regiões com alta incidência e baixo acesso à saúde
Estratégia:
• Lenacapavir deve ser incorporado como mais uma escolha no leque da prevenção combinada
• O uso de testes rápidos (RDT) é suficiente para início e seguimento da PrEP com lenacapavir, conforme diretriz
Farmacocinética e administração
• Via: subcutânea
• Dose: 927 mg (duas injeções de 1,5 mL) a cada 26 semanas
• Esquema de início:
• Dia 1: 300 mg VO + injeção SC
• Dia 2: 300 mg VO
A droga atinge níveis terapêuticos em poucos dias e se mantém por mais de 6 meses. Isso reduz drasticamente o risco de falhas por não adesão.
Limitações e vigilância
• Raros casos de resistência viral foram identificados, sendo a mutação M66I a mais comum.
• O risco de falha é maior em situações com infecção recente não detectada.
• Monitoramento contínuo com testes rápidos e eventual carga viral é recomendado. O monitoramento de outras ISTs, como sífilis, é essencial para prevenção combinada.
Como as pessoas veem a PrEP injetável? Insights do Brasil
Para entender a aceitação real da PrEP injetável, com drogas como o cabotegravir (CAB‑LA) ou lenacapavir, precisamos ouvir diretamente quem vivencia a prevenção. O estudo ImPrEP CAB‑Brasil, publicado na Journal of the International AIDS Society (2025), entrevistou jovens de minorias sexuais e de gênero (18–30 anos) em seis cidades brasileiras, avaliando percepções e preferências entre a PrEP oral e injetável, complementadas por um recurso educativo via mHealth (ferramenta digital).
Metodologia
• 120 entrevistas semiestruturadas (48 no grupo padrão, 72 com mHealth)
• População: 107 usuários de CAB‑LA, 13 de PrEP oral
• Período: outubro/2023 a julho/2024 em unidades públicas de PrEP em clínicas de saúde
Principais achados
1. Baixo conhecimento prévio: quase todos desconheciam a PrEP injetável antes do estudo — ouviam falar através de amigos ou parceiros
2. Motivos para escolher CAB‑LA (injetável):
• Comodidade e praticidade: poucas doses por ano facilitam o dia‑a‑dia
• Maior chance de adesão por não exigir controle diário
• Percepção de eficácia superior à PrEP oral
3. Razões contra:
•Medo de agulhas e dor na injeção — uma preocupação manifestada por algumas pessoas
4. Preferência pela PrEP oral:
• Menos consultas médicas (via oral)
• Facilidade de interromper uso se necessário (viagem, efeitos adversos)
• Evita dor associada à injeção
5. Motivos para rejeição da oral:
• Esquecimento diário dos comprimidos
• Efeitos gastrointestinais
• Estigma ao usar “remédios de HIV” — muitas pessoas temiam o julgamento familiar
6. Importância do mHealth:
• Vídeos educativos foram considerados extremamente úteis — esclareciam dúvidas e ajudavam na tomada de decisão
Citações diretas de pacientes
• “Perceberam que a injetável era mais prática, fácil de aderir com injeções bimestrais e tinha eficácia maior comparada à oral.” – relato descrito no estudo
• “Tinha medo de injeção e dor.” – um dos participantes
Implicações na prática clínica e implementação
• Educação e aconselhamento são cruciais: muitas pessoas não conhecem a opção injetável — informação estruturada (como via mHealth) é essencial.
• Oferecer opções informadas: disponibilizar tanto PrEP oral quanto injetável respeita preferências individuais, aumentando o engajamento.
• Estratégias híbridas: combinar visita profunda para a escolha do método, lembretes digitais e suporte psicoeducativo pode maximizar adesão e retenção.
• Endereçar barreiras comuns: dor na injeção, estigma farmacológico, acesso facilitado e consulta humanizada são elementos-chave para implementar eficazmente na comunidade.
A PrEP injetável tem aceitação real, mas seu sucesso depende da combinação de informação acessível, respeito às preferências pessoais e apoio contínuo ao usuário. Sem isso, a inovação pode perder impacto — e quem ganha com isso é o HIV, não a prevenção.
Moral da história
Com duas injeções por ano, o Lenacapavir não só revoluciona a adesão, como oferece proteção robusta e duradoura, com potencial de mudar a trajetória da epidemia em populações negligenciadas.
É uma inovação que rompe com o modelo da PrEP diária e caminha para uma prevenção mais acessível, eficaz e equitativa.
Esperamos que a acessibilidade global ao Lenacapavir seja facilitada pelas autoridades de saúde dos países, dado o alto custo do medicamento, que ainda não foi aprovado para uso no Brasil pela ANVISA.
Fontes
1. BEKKER, L.-G. et al. Twice-yearly lenacapavir or daily F/TAF for HIV prevention in cisgender women. The New England Journal of Medicine, v. 391, n. 13, p. 1179–1192, 2024. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2407001.
2. KELLEY, C. F. et al. Twice-yearly lenacapavir for HIV prevention in men and gender-diverse persons. The New England Journal of Medicine, v. 392, n. 13, p. 1261–1276, 2025. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2411858.
3. SEGAL-MAURER, S. et al. Capsid inhibition with lenacapavir in multidrug-resistant HIV-1 infection. The New England Journal of Medicine, v. 386, n. 19, p. 1793–1803, 2022. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2115542.
4. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on lenacapavir for HIV prevention and testing strategies for long-acting injectable pre-exposure prophylaxis. Geneva: WHO, 2025. ISBN: 978-92-4-011160-8.
5. DOURADO, I. et al. Exploring perceptions and preferences for PrEP choice and of an mHealth intervention: insights from the ImPrEP CAB-Brasil study. Journal of the International AIDS Society, v. 28, n. 6, e26493, 2025. DOI: https://doi.org/10.1002/jia2.26493.
Quer conhecer mais sobre o melhor curso de Antibióticos do Brasil? Clique no botão abaixo:
