Infecção de Corrente Sanguínea: Quanto Tempo Tratar?

Os estudos mais recentes desafiam o velho hábito dos 14 dias. Será que chegou a hora de encurtar o antibiótico?
 
Você ainda trata toda ICS por 14 dias? Estudos recentes mostram que, para muitos casos, 7 dias podem ser suficientes — com a mesma eficácia e menos efeitos colaterais.
 
Mas cuidado: nem todos os agentes entram nessa conta. Neste artigo, você vai entender quando encurtar com segurança e quando manter o tratamento completo.
 

O que é uma infecção de corrente sanguínea (ICS)?

A infecção de corrente sanguínea (ICS) é definida como a presença de microrganismos viáveis no sangue, comprovada por hemocultura positiva, associada a sinais clínicos de infecção. Pode ser:
Primária: sem foco aparente (ex: relacionada a cateteres)
Secundária: associada a um foco conhecido (ex: urinário, pulmonar, abdominal)
 
Hoje, vamos nos ater às Infecções de Corrente Sanguínea bacterianas. As ICS bacterianas estão entre as principais causas de mortalidade hospitalar no mundo. O tratamento precoce e adequado é essencial — mas a dúvida persiste: quanto tempo devemos tratar?
 

Quais são os sinais clínicos e os principais patógenos?

A apresentação clínica é variável — desde sintomas discretos até quadros sépticos graves. Os sinais de alarme incluem:
• Febre (>38°C) ou hipotermia
• Calafrios e tremores
• Taquicardia / taquipneia
• Hipotensão
• Alteração do nível de consciência (especialmente em idosos)
• Leucocitose ou leucopenia
 
Principais patógenos identificados em hemoculturas:
Escherichia coli
Klebsiella pneumoniae
Pseudomonas aeruginosa
Enterococcus spp.
Streptococcus spp.
Staphylococcus aureus (com risco elevado de complicações)
 
Na suspeita clínica, a conduta imediata deve incluir coleta de hemoculturas periféricas (idealmente dois pares) e investigação de foco, com atenção especial a cateteres venosos e dispositivos invasivos.
 

Afinal, precisamos tratar sempre por 14 dias?

Durante décadas, o padrão foi manter antibióticos por 14 dias ou mais em toda ICS bacteriana. Mas esse paradigma vem sendo desafiado.
 
O ensaio clínico randomizado multicêntrico BALANCE, publicado no New England Journal of Medicine em 2024, avaliou 3.636 pacientes com ICS por microrganismos sensíveis, comparando 7 dias versus 14 dias de antibiótico.
 
Resultado?
O grupo tratado por 7 dias apresentou não inferioridade em mortalidade em 90 dias (18,2% vs. 18,4%) e desfechos secundários.
 
Mas atenção: o estudo excluiu pacientes com:
Staphylococcus aureus
• Fungos ou micobactérias
• Pacientes Neutropênicos
• Foco não controlado
• Endocardite, osteomielite ou próteses infectadas
 

Os Bacilos Gram-Negativos foram o centro das atenções 

O BALANCE incluiu mais de 1.500 pacientes com ICS por E. coli, Klebsiella, Pseudomonas e outros bacilos Gram-negativos (BGNs), com foco nos Enterobacterales.
 
Quando o foco está controlado e o paciente está estável, 7 dias de tratamento foram suficientes para erradicar os Enterobacterales. Isso representa uma mudança segura e baseada em evidência para a prática clínica, com impacto positivo na redução de eventos adversos e resistência antimicrobiana.
 
E como podemos tratar esses patógenos? Veja na tabela abaixo:

E quando o agente é o Staphylococcus aureus?

Aqui o jogo muda!
 
O S. aureus foi propositalmente excluído do estudo BALANCE. Isso porque, mesmo nos casos chamados de “não complicados”, ele possui alta capacidade de invadir tecidos, formar abscessos e biofilmes.
 
De acordo com uma revisão sistemática realizada pela Sociedade Europeia de Infectologia (ESCMID) publicada em 2024 (Clinical Microbiology and Infection), ainda não há evidência suficiente para encurtar o tratamento nesses casos. Assim, o recomendado permanece:
ICS por S. aureus não complicada: mínimo de 14 dias
ICS complicada (endocardite, foco ósseo, múltiplos focos): 4 a 6 semanas
 
E como podemos tratar o Staphylococcus aureus? Aqui vão algumas sugestões de tratamento:

Resumo prático: Tempo de tratamento por patógeno

Menos é mais? Sim, desde que com segurança.

Reduzir a duração do antibiótico, quando possível, traz vários benefícios:
Menor risco de nefrotoxicidade e colite por Clostridioides difficile
Menor pressão seletiva para resistência
Redução de custos e tempo de hospitalização
 
Mas atenção: só é seguro reduzir quando:
• O foco infeccioso foi controlado
• O paciente está hemodinamicamente estável
• O patógeno está identificado e com sensibilidade definida
• O controle clínico é evidente
 

Conclusão

O tempo de tratamento da infecção de corrente sanguínea não é mais “um tamanho único”. A decisão deve ser personalizada, baseada no agente etiológico, foco da infecção, resposta clínica e, claro, na melhor evidência disponível.
 
Para os Gram-negativos, 7 dias podem ser suficientes.
Para o S. aureus, ainda não dá pra relaxar.
 
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Fontes

1. DANEMAN, Nick et al. Seven versus fourteen days of antibiotic treatment for bloodstream infection in adults. The New England Journal of Medicine, v. 390, n. 2, p. 145–155, 2024. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2404991.
2. SCHNIZER, Hannah et al. Short versus standard-duration antibiotic therapy for Staphylococcus aureus bloodstream infections: A systematic review. Clinical Microbiology and Infection, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.cmi.2024.102311.

3. CANTÓN-BULNES, María L.; GARNACHO-MONTERO, José. Practical approach to the management of catheter-related bloodstream infection. Revista Española de Quimioterapia, Madrid, v. 32, supl. 2, p. 38–41, set. 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6755371/.

4. TIMSIT, Jean-François et al. Bloodstream infections in critically ill patients: an expert statement. Intensive Care Medicine, Berlim, v. 46, n. 2, p. 266–284, fev. 2020. DOI: 10.1007/s00134-020-05950-6. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7223992/.

5. TAMMA, Pranita D. et al. Infectious Diseases Society of America 2024 Guidance on the Treatment of Antimicrobial-Resistant Gram-Negative Infections. Clinical Infectious Diseases, Oxford, 2024. DOI: 10.1093/cid/ciae403. Disponível em: https://doi.org/10.1093/cid/ciae403.

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