Você sabia que algumas bactérias possuem um mecanismo de resistência que pode inutilizar os antibióticos mais usados na prática médica? Essas enzimas, conhecidas como beta-lactamases, são um dos maiores desafios no tratamento de infecções bacterianas resistentes. Neste artigo, vamos explicar o que são as beta-lactamases, como funcionam, suas classes principais e estratégias para combatê-las.
O Que São Beta-Lactamases?
As beta-lactamases são enzimas produzidas por bactérias que destroem antibióticos beta-lactâmicos, como:
• Penicilinas
• Cefalosporinas
• Monobactâmicos (Aztreonam)
• Carbapenêmicos
Essas enzimas hidrolisam o anel beta-lactâmico, estrutura essencial para a ação desses medicamentos, tornando-os ineficazes. Não possuem atividade contra outras classes de antibióticos!
Beta-Lactamases: Classes e Exemplos
As beta-lactamases são divididas em quatro classes principais, as Classes de Ambler, cada uma com características específicas que complicam o tratamento de infecções:
Classe A (Beta-lactamases de Serina)
• Penicilinases: são beta-lactamases especializadas em destruir penicilinas.
• Essas enzimas foram descritas pela primeira vez em Staphylococcus aureus, representando o início da resistência bacteriana mediada por beta-lactamases desde meados da segunda guerra mundial.
• Enzimas como as ESBLs (Beta-lactamases de Espectro Estendido) conseguem destruir cefalosporinas de 3ª geração e monobactâmicos.
• KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase): destrói os Carbapenêmicos, é amplamente encontrada em ambientes hospitalares.
Classe B (Metallo-beta-lactamases)
• Dependem de íons de zinco para sua atividade. Seus nomes são escolhidos com base nas cidades em que foram descobertas.
• Exemplos incluem:
• NDM (New Delhi Metallo-beta-lactamase)
• VIM (Verona Integron-encoded Metallo-beta-lactamase)
• SPM (São Paulo Metallo-beta-lactamase)
• São altamente resistentes e de difícil tratamento.
Classe C (AmpC Beta-lactamases)
• Conferem resistência a cefalosporinas de 1ª a 3ª geração e são frequentemente encontradas em bactérias como Enterobacter cloacae complex; Citrobacter freundii e Klebsiella aerogenes (o grupo CEK).
• Essas enzimas podem ser induzidas através da desrepressão do gene AmpC em partes específicas do DNA das bactérias pelo uso de antibióticos beta-lactâmicos, como Cefalosporinas de 3ª geração, complicando o manejo clínico.
Classe D (Oxacilinases)
• As oxacilinases (OXA), como OXA-48, OXA-23 e OXA-58, conferem resistência aos Carbapenêmicos.
• São prevalentes em patógenos como Acinetobacter baumannii e Klebsiella pneumoniae, apresentando resistência até mesmo a inibidores mais recentes.
O Que Cada Enzima Hidrolisa e Como Tratar?
Penicilinases
• Atividade: Hidrolisam penicilinas naturais e aminopenicilinas.
• Bactérias comuns: Staphylococcus aureus.
• Tratamento: Antibióticos resistentes a penicilinases, como oxacilina e cefalosporinas de primeira geração (ex.: Cefalexina). São altamente sensíveis aos inibidores de B-Lactamases tradicionais, portanto, drogas como Amoxicilina + Clavulanato também são eficazes.
Cefalosporinases (AmpC)
• Atividade: Hidrolisam cefalosporinas de 1ª a 3ª geração, todas as penicilinas e monobactâmicos (ex.: Aztreonam).
• Bactérias comuns: Enterobacter cloacae, Citrobacter freundii e Klebsiella aerogenes.
• Tratamento: Cefepima é a primeira escolha para muitos casos; carbapenêmicos como ertapenem podem ser usados em infecções graves e de difícil controle.
Atenção: são enzimas que não sofrem ação de inibidores de B-Lactamases mais antigos, como o Ácido Clavulânico, Sulbactam e Tazobactam.
Beta-Lactamases de Espectro Estendido (ESBLs):
• Atividade: Hidrolisam cefalosporinas até a 4ª geração (ex.: Cefepima), penicilinas e monobactâmicos (ex.: aztreonam).
• Bactérias comuns: Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae. Enterobacterales, de forma geral.
• Tratamento: Carbapenêmicos (ex.: meropenem ou ertapenem).
Atenção: embora sofram alguma ação de inibidores de B-Lactamases antigos, há evidências de inferioridade e falha terapêutica com essas drogas, por isso os Carbapenêmicos são os antibióticos de escolha.
Carbapenemases (KPC, NDM)
• Atividade: Hidrolisam todos os beta-lactâmicos, incluindo Carbapenêmicos.
• Bactérias comuns: Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter baumannii e Pseudomonas aeruginosa.
• Tratamento:
• KPC (Classe A): Ceftazidima-avibactam ou imipenem-relebactam. São indicados em monoterapia.
• NDM (Classe B): Ceftazidima-avibactam combinado com aztreonam. Lembre-se de sempre realizar o teste de sinergismo in vitro entre as drogas, para avaliar se a combinação é efetiva ou não.
Atenção: Metallo-B-Lactamases não conseguem hidrolisar o Aztreonam! Contudo, a co-produção enzimática de outras B-Lactamases pode garantir a ineficácia do Aztreonam em monoterapia.
Oxacilinases (OXA-type)
• Atividade: Hidrolisam oxacilina, cefalosporinas e Carbapenêmicos (em alguns casos).
• Bactérias comuns: Acinetobacter spp. e Klebsiella pneumoniae.
• Tratamento: Terapias combinadas como cefiderocol para infecções complexas. Ceftazidima + Avibactam é efetivo apenas contra OXA-48.
Atenção para todas as classes de beta-lactamases: outras classes de antibióticos podem ser usadas ou necessárias em monoterapia ou terapia de combinação (se sensibilidade confirmada in vitro), como Polimixinas, Glicilciclinas (Tigeciclina), aminoglicosídeos e Fluoroquinolonas.
Como as Beta-Lactamases se Espalham e São Identificadas?
Os genes que codificam beta-lactamases são frequentemente encontrados em plasmídeos, facilitando sua transmissão horizontal entre diferentes bactérias. Isso acelera a propagação da resistência, especialmente em ambientes hospitalares, onde o uso de antibióticos é elevado.
• Bactérias do grupo ESKAPE (Enterococcus, Staphylococcus, Klebsiella, Acinetobacter, Pseudomonas e Enterobacter) são exemplos de organismos que frequentemente produzem beta-lactamases, incluindo AmpC, carbapenemases e ESBLs.
• Muitos desses organismos carregam múltiplas beta-lactamases, tornando o tratamento ainda mais complexo. Por exemplo: Metallo-B-Lactamases em associação com ESBLs.
A identificação das beta-lactamases é essencial para guiar o tratamento correto e evitar falhas terapêuticas. Os principais métodos laboratoriais incluem:
✅ Testes Fenotípicos:
• Teste de Hodge Modificado: Detecta carbapenemases, como KPC.
• Teste do Disco Aproximado (Doble Disk Synergy Test – DDST): Identifica ESBLs.
• Teste de Sinergismo com Inibidores: Avalia inibição de beta-lactamases por ácido clavulânico, tazobactam ou avibactam.
• Teste mCIM (Carbapenem Inactivation Method Modificado): Detecta carbapenemases em enterobactérias e Pseudomonas aeruginosa por meio da inativação de um disco de meropenem.
• Teste eCIM (EDTA-modified CIM): Diferencia metalo-beta-lactamases (como NDM e VIM) das serino-carbapenemases (como KPC), adicionando EDTA para inibir metaloproteases.
✅ Testes Moleculares:
• PCR (Reação em Cadeia da Polimerase): Identifica genes específicos de resistência, como blaKPC, blaNDM e blaOXA.
• Sequenciamento Genômico: Fornece perfil detalhado das beta-lactamases presentes na bactéria.
✅ Testes Automatizados:
• MALDI-TOF: Técnica rápida baseada na espectrometria de massa.
• Painéis de Sensibilidade (VITEK, Phoenix, BD MAX): Avaliam resistência de forma padronizada.
A escolha do método depende da disponibilidade e da urgência da identificação para garantir o melhor esquema antimicrobiano.
Como Combater as Beta-Lactamases?
1. Inibidores de Beta-Lactamase
Combinar antibióticos beta-lactâmicos com inibidores específicos tem sido uma estratégia eficaz. Exemplos incluem:
• Clavulanato (com amoxicilina).
• Tazobactam (com piperacilina).
• Avibactam (com ceftazidima).
Inibidores mais recentes, como relebactam e vaborbactam, têm mostrado eficácia contra algumas carbapenemases, como KPC.
2. Novos Antibióticos
Antibióticos inovadores, como cefiderocol e meropenem-vaborbactam, são promissores contra bactérias produtoras de beta-lactamases, incluindo oxacilinases e metalo-beta-lactamase. Os novos Beta-Lactâmicos representam o futuro próximo dos antibióticos na luta contra a resistência antimicrobiana!
3. Medidas de Controle em Hospitais
• Higienização rigorosa das mãos.
• Isolamento de pacientes infectados com bactérias multirresistentes.
• Uso racional de antibióticos para evitar pressão seletiva.
Por Que as Beta-Lactamases São Relevantes?
As beta-lactamases, especialmente as carbapenemases e oxacilinases, têm impacto significativo:
• Aumento da mortalidade em infecções hospitalares graves.
• Limitação de tratamentos, exigindo uso de terapias mais caras e menos acessíveis.
• Impacto econômico devido ao prolongamento das internações e necessidade de tratamentos alternativos.
Conclusão: Como Enfrentar o Desafio das Beta-Lactamases?
Compreender os mecanismos das beta-lactamases, incluindo cefalosporinases, carbapenemases e penicilinases, é crucial para combater a resistência bacteriana. Novas estratégias, aliadas ao uso racional de antibióticos, são essenciais para proteger a eficácia dos tratamentos disponíveis e garantir a segurança do nosso futuro.
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Fontes
1. Bush K, Bradford PA. Epidemiology of Β-Lactamase-Producing Pathogens. Clinical Microbiology Reviews. 2020.
2. Tooke CL, Hinchliffe P, Bragginton EC, et al. Β-Lactamases and Β-Lactamase Inhibitors in the 21st Century. Journal of Molecular Biology. 2019.
3. Bush K. Past and Present Perspectives on Β-Lactamases. Antimicrobial Agents and Chemotherapy. 2018.
4. de Souza J, Vieira AZ, Dos Santos HG, Faoro H. Beta-Lactamase Proteins in Gram-Negative Bacteria. BMC Genomics. 2024.
5. Bush K, Bradford PA. Interplay Between Β-Lactamases and New Β-Lactamase Inhibitors. Nature Reviews. Microbiology. 2019.
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