Bronquiolite: O Que Todo Médico Deve Saber Sobre o Vírus Sincicial Respiratório e Seu Impacto em Lactentes

A bronquiolite continua sendo uma das principais causas de internação em bebês e um tema que gera muitas dúvidas entre pais e profissionais de saúde. E o grande vilão por trás da maioria desses casos tem nome e sobrenome: Vírus Sincicial Respiratório (VSR).
 
Neste post, você vai entender de forma didática o que é a bronquiolite, como ela se manifesta, como diagnosticar, como conduzir o manejo e, principalmente, como podemos prevenir essa doença que costuma assustar tanto nas emergências pediátricas.
 

O que é a bronquiolite?

A bronquiolite é uma infecção viral aguda que acomete os bronquíolos — pequenas vias aéreas dos pulmões. Ela leva a inflamação, edema e produção de muco, dificultando a passagem de ar.
 
Embora diversos vírus possam causar bronquiolite, o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) é o principal responsável — presente em até 76% dos casos de bronquiolite hospitalizada segundo o guideline da American Academy of Pediatrics (AAP) (2014). No Brasil, o VSR é o principal vírus responsável por infecções graves em crianças, reforçando a atenção para essa população em épocas de surto.
 
A infecção pelo VSR ocorre em praticamente 100% das crianças até os 2 anos de idade, e cerca de 40% desenvolvem infecção de vias aéreas inferiores.
 

Quadro clínico da bronquiolite

O quadro clínico é bem característico e evolui em fases:
 
1. Início com sintomas de vias aéreas superiores:
Rinorreia (coriza)
Congestão nasal
Tosse leve
 
2. Progressão para vias aéreas inferiores (geralmente no 2º a 3º dia de doença):
Tosse persistente
Taquipneia
Uso de musculatura acessória para respirar
Sibilância (chiado no peito) e crepitações
Irritabilidade ou letargia
Hiporexia, dificuldade para mamar ou se alimentar
Episódios de apneia (em lactentes jovens)
 
Em geral, o pico de gravidade ocorre no 2º a 3º dia, com melhora progressiva após o 5º a 7º dia. Podemos estratificar a gravidade de acordo com a clínica da criança:

Como é feito o diagnóstico?

Diagnóstico é clínico. Ou seja, baseia-se na história e no exame físico.
 
Não se recomenda solicitar exames de rotina como raio-X ou PCR/antígenos apenas para confirmar bronquiolite.
 
Exames podem ser considerados apenas se houver:
Suspeita de infecção bacteriana associada
Deterioração clínica inesperada
Pacientes imunossuprimidos.
 
Importante: o VSR pode ser confirmado em testes moleculares (RT-PCR), mas o resultado não muda o manejo clínico em casos típicos.
 

Critérios para internação hospitalar na bronquiolite

1. Hipoxemia persistente
• SpO₂ < 90% de forma persistente em lactentes saudáveis ≥ 6 semanas.
• SpO₂ < 92% em:
• Lactentes < 6 semanas
• Lactentes com doença de base (cardiopatia, doença pulmonar crônica, imunossuprimidos).
 
👉 Se o lactente não mantém saturação adequada em ar ambiente ou requer O₂ suplementar contínuo.
 
2. Desconforto respiratório moderado a grave
Frequência respiratória muito elevada ou com sinais de fadiga.
Uso importante de musculatura acessória, batimento de asa nasal.
Retração torácica severa.
Apneia (confirmada ou história confiável de episódios).
Episódios de cianose.
Alteração do nível de consciência (letargia).
 
3. Dificuldade alimentar importante
• Incapacidade de manter ingestão oral adequada.
• Desidratação ou risco elevado de desidratação.
• Recusa persistente do seio materno ou da mamadeira.
 
👉 Critério clínico fundamental em menores de 6 meses.
 
4. Apneia documentada ou risco aumentado de apneia
• Lactentes < 6 semanas.
• Prematuros (< 37 semanas de idade gestacional).
• História de apneia no quadro atual.
 
5. Doenças de base ou fatores de risco para evolução grave
• Prematuridade (< 37 semanas), especialmente < 32 semanas.
• Cardiopatia congênita significativa.
• Doença pulmonar crônica (ex: displasia broncopulmonar).
• Doenças neuromusculares.
• Imunodeficiência.
• Síndrome genética com impacto respiratório.
 
👉 Estes pacientes devem ser internados mesmo com quadros considerados leves a moderados.
 
6. Situação social ou domiciliar inadequada para seguimento ambulatorial seguro
• Dificuldade de acesso à assistência médica.
• Impossibilidade de monitoramento domiciliar adequado.
• Instabilidade familiar ou social.
 

Manejo da bronquiolite

A bronquiolite é geralmente autolimitada e a base do tratamento é suporte clínico.
 
Medicações que não devem ser utilizadas de forma rotineira:
Broncodilatadores (salbutamol/albuterol) → não recomendados.
Epinefrina nebulizada → não recomendada.
Corticosteroides sistêmicos → não recomendados.
Antibióticos → apenas se infecção bacteriana estiver claramente presente.
 
Medidas recomendadas:
Oxigênio suplementar se SpO₂ persistente < 90-92%.
Suporte nutricional e hidratação:
• Preferência por alimentação oral, mas em casos com esforço respiratório importante ou risco de aspiração, usar via nasogástrica ou venosa.
Monitorização clínica, com uso criterioso de oximetria de pulso.
Alta hospitalar é indicada quando o paciente estiver em melhora clínica e conseguir manter boa alimentação oral.
 
Para auxiliar no manejo do suporte ventilatório, recomendamos seguir o seguinte algoritmo:

Relação entre bronquiolite e o VSR

O Vírus Sincicial Respiratório é a principal causa de bronquiolite e apresenta um padrão sazonal claro:
• Nos meses de outono e inverno no Brasil.
• Em lactentes, especialmente menores de 6 meses, a infecção por VSR é associada a maior risco de insuficiência respiratória.
 
Além disso, crianças com fatores de risco têm maior chance de complicações:
• Prematuridade
• Cardiopatia congênita
• Doença pulmonar crônica
• Imunodeficiência.
 

Prevenção da bronquiolite pelo VSR

Como podemos prevenir?
 
Medidas gerais:
Higienização frequente das mãos.
Etiqueta respiratória (cobrir nariz e boca ao tossir/espirrar).
Evitar exposição de lactentes a aglomerações durante a sazonalidade do VSR.
Evitar exposição à fumaça de cigarro (tabagismo passivo).
 
Vacinação e imunização passiva:
Palivizumabe (anticorpo monoclonal):
• Indicado para lactentes de alto risco para complicações (ex: prematuros < 28 semanas e crianças < 2 anos com cardiopatia congênita e repercussão hemodinâmica ou com displasia broncopulmonar).
Aplicação mensal durante a sazonalidade do VSR. De 1 a 5 doses com intervalos de 30 dias, 15mg/kg/dose por via intramuscular (IM).
 
Novas vacinas contra VSR:
• Atualmente, existem duas vacinas disponíveis no Brasil: Arexvy® (GSK) e Abrysvo® (Pfizer), ambas com a mesma indicação, mas com diferenças na composição e no público-alvo. 
Arexvy® (GSK):
Indicação: Maiores de 60 anos, principalmente aqueles com comorbidades.
Dose: Única.
Cobertura: Previne a doença causada pelos subtipos do VSR, incluindo VSR-A e VSR-B. 
 
Abrysvo® (Pfizer):
Indicação: Gestantes a partir da 24ª semana (para proteger o recém-nascido) e idosos acima de 60 anos. 
Dose: Única. 
Cobertura: Previne a doença causada pelos subtipos do VSR, incluindo VSR-A e VSR-B
 
Promoção do aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses → comprovadamente reduz infecções respiratórias.
 

Conclusão: 

 
A bronquiolite continua sendo uma condição desafiadora, principalmente em lactentes pequenos, com risco de hospitalização e complicações. E o Vírus Sincicial Respiratório é o grande protagonista desses quadros.
 
O manejo deve ser centrado no suporte clínico, evitando intervenções farmacológicas ineficazes. Já a prevenção, com estratégias como a imunização passiva, aleitamento materno e controle ambiental, é uma aliada fundamental para reduzir a carga da doença.
 
Fique atento à sazonalidade do VSR e às medidas de prevenção — conhecimento é a melhor ferramenta para proteger nossos pequenos pacientes.
 
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Fontes:

1. American Academy of Pediatrics. Clinical Practice Guideline: The Diagnosis, Management, and Prevention of Bronchiolitis. Pediatrics. 2014.
2. Australasian Bronchiolitis Guideline: 2025 Update.
3. Guia de Vigilância Integrada da COVID-19, Influenza e Outros Vírus Respiratórios – Ministério da Saúde, 2024.

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